8.5.08

só é possível filosofar em alemão

O metro quadrado da minha mesa não prima pelo critério, nem pela novidade: tem sempre um convite de exposição no papel de porta-copo, fatura vencida da Tim, tubo de Tenys Pé by Baruel canforado, cartela de Finasterida pela metade e o troco do mercado de anteontem pra arrematar a tragédia.

Os trocos se espalham feito vírus, brotam sem nem se ver. Eu mesmo, que tento dar fim a qualquer níquel antes que vire percussão no bolso, tenho cá uns três porquinhos cheios esperando solução.

Se você junta uma pilha de centavos, descobre que é dono de cinquenta dinheiros. No princípio, vai parecer muito, que tá ali amontoada toda a sobra da riqueza que já movimentou na vida. Mas quando se transforma o volume em nota, a coisa muda de figura e você nem vê onde foi parar a Viradouro em miniatura que escondia dentro da gaveta.

Foi o que eu resolvi empenhar pra assistir ao primeiro show do Rufus Wainwright no Brasil. Cláudia Abreu e Paula Toller copiaram a minha ideia, só que não desembolsaram um tostão sequer. É que artista não paga a entrada de show porque coloca o nome na lista vip, sob a promessa de sorrir pra coluna social do dia seguinte. Já eu passo pelo constrangimento de assumir a condição de estudante e abrir mão da coleção de pratinhas pra custear a meia. A volta que, maroto, dou na circunstância é me fazer de antipático: entro sisudo e saio emburrado.

O compromisso com a carranca em eventos do gênero, entretanto, foi abalado nesta quarta-feira. Não tive a honra de ser exceção. A plateia carioca, internacionalmente reconhecida por sua marra, comportou-se tal e qual um embevecido grupo de adolescentes encontrando o seu messias. E ele compareceu para destilar redenção.

Não é exatamente por confessar que cigarros e toddynhos são alguns de
seus desvios de caráter ou por não ver problema em emprestar o palco à irmã menos capaz que Rufus Wainwright é um grande artista. Ele o é por um tal acúmulo de talentos que até a plateia carioca, internacionalmente reconhecida por sua marra, se viu obrigada a descer do salto, pedir bis três vezes e entregar gritinhos de uhuuuu ontem à noite.

Desprovido de banda, cenário ou roteiro, Rufus Wainwright usa nada mais do que sua performance pra convencer o público. Canta como se o registro de barítono não tivesse limite para baixo ou para cima e engole o piano como um solista clássico para apresentar aquelas melodias que só a canção popular consegue produzir. Nas horas vagas, conversa com os mortais e faz piada como se tudo não passasse, mesmo, de brincadeira.

Mais novo, já fui tolo de lamentar não ter vivido nos anos 1920, uma época em que o mundo parece ter sido habitado por gente tão incrível que não teria me cabido outro destino senão também entrar pra história, mesmo que fosse pelo viés da mediocridade. Oito décadas depois, do fundo mudo do hemisfério sul, enquadrado na janela estética que a brasilidade me concede como graça e punição, eu me deparei com a certeza de que nem numa antologia da pequeneza me restaria espaço: a história, qualquer que seja, não se escreve abaixo do Equador.

Que esta não é uma conclusão brilhante eu sei. O que não sabia era que sairia de casa em plena quarta-feira para dar de cara com aquele mesmo embrião que deu origem a alguns artistas geniais nos primórdios do século passado.
Rufus é descendente da linhagem dos big five, os compositores que fundaram a moderna canção americana: George Gershwin, Jerome Kern, Cole Porter, Irving Berlin e Richard Rodgers. Dos cinco, pelas ironias e afetações, certamente é do autor de Anything goes que está mais perto. A diferença é que Rufus também canta. Cheio de si, se espreguiça numa dicção semicerrada e atropela o andamento de certas canções só pra persuadir a plateia de sua humanidade e poder vencer em mais um quesito.

Nunca esperei que a qualidade subdesenvolvida dos meus juízos de valor fosse se manifestar num show desprovido de banda, cenário ou roteiro. Mas ali, diante das coisas que Rufus Wainwright faz sem precisar enfeitar ou explicar muito, fui convidado a pensar nos poemas de Emily Dickinson ou nas canções de Leonard Bernstein que ele deve ter aprendido na escola como se fossem, mesmo, brincadeira. E em como por trás de seu talento e seu vigor caucasiano estão uma infância à base de sustagens de que nunca tivemos notícia, confortáveis índices de empregabilidade e toda a solidez da tradição educacional norte-americana.

A noite dessa quarta, contudo, não serviu apenas pra esclarecer de uma vez por todas que o raio das minhas expectativas está traçado pela fatalidade de ter nascido latino-americano. Rufus me ensinou a substancial diferença entre arte e release, virtuosismo e teoria, rigor e contextualização. Ao me deparar com uma expressão que dispensa qualquer perspectiva, prescrevi outro patamar de exigência para me desapegar dos meus porquinhos.

Talvez eu comece a sorrir mais em estreias quando rasgar a cartilha crítica dos Estudos Culturais, que, nos últimos quarenta anos, tem oferecido o discurso antropológico como advogado de nossa singularidade e a relativização como eterna desculpa pro real lugar que ocupamos no mundo. Rufus Wainwright nunca deve ter perdido seu tempo lendo Hegel, mas é curioso como o catálogo de suas capacidades nos faz voltar à abominável crença de que existe um modelo de evolução para o processo civilizatório.

Sejamos imperialistas.

8 comentários:

palácios disse...

"a substancial diferença entre arte e release".

esse show de rufus evidenciou aquilo que eu já desconfiava faz tempo. se não fosse irreversivelmente para susana, seria aos wainwright que eu dedicaria meu livro "conspirando contra a mpb".

Isadora disse...

estou impressionada com a maneira que você escreve. sério.

a comentar:

1. "níquel". moeda é coisa de proletariado. "níquel.'
2. "a história, qualquer que seja, não se escreve abaixo do equador." não conte pra ninguém (eu faço História, eu não poderia), mas eu AMEI essa frase.
3. eu acho que eu preciso conhecer melhor o Rufus (o Lenhador). PReciso, sim.

Briza disse...

é tão bonito aqui.

carolina disse...

quantas figuras de linguagem

Anônimo disse...

oafogado.blogspot.com
todos meus livros lá.
abraço.

palácios disse...

te amo, espanhola.

Robertson dos teclados! disse...

eh o grande artiss pelos olhos do "pequeno" enorme artiss

Mariano Tavares disse...

Belíssimo texto, amigo. Saí de Natal pro só pra ver esse show na SCM. Mas no meu caso eu sabia exatamente o que iria encontrar. E encontrei. Rufus quase não deixa que nada antes dele pareça sequer comparável. Destilar redenção é um movimento epifânico "epifânico". Belíssimo texto: redigo.