8.6.09

eu bem que te avisei

Apocalipse matriarcal
Ao contrário de criar um modelo original de relação a dois, os casais apenas inverteram o arquétipo que apresentava o dominador, então interpretado pelo homem, e a dominada, vivida pela mulher. Segundo o psicanalista Joel Birman, as mulheres assumiram o pólo controlador, enquanto os homens perderam o rumo ao se submeterem ao papel de dominados: O que o movimento feminista criou foi uma massa de homens que hoje não sabe mais o que é ser homem num mundo onde as mulheres são poderosas. Há uma crise na condição masculina”.

Caderno Ela, O Globo, 6 de junho de 2009

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Eu queria ter tempo pra comentar as sutilezas - e a falta delas - nessas reportagens recentes d'O Globo. Como não tenho, jogo aqui pra vocês se divertirem. Por ora, digo apenas que é estranho - e um pouco saboroso - abrir o jornal e dar de cara com as tragédias que, discípulo lacaniano de Mãe Dinah, sempre profetizei.

A quem deslizou no erro de ter nascido homem e não aprendeu a lidar com o arcaísmo desse lugar social, presto aqui minha solidariedade. Tá tudo dominado, colega, e quem manda são elas.

5.6.09

a regra é clara

Pop hoje é mulher sarada
A fortona da foto é Stella Campos, uma das praticantes de body building fotografadas por André Arruda no ensaio “Fortia femina — Aceitação e preconceito”. “Elas são femininas e gostam de homem”, afirma, para início de conversa. “Começam no esporte por estarem insatisfeitas com o corpo.” Para o fotógrafo, que expõe a partir do dia 23 no Centro Cultural da Justiça Federal, dentro do evento FotoRio, “o imaginário pop de hoje é o da mulher sarada”.

Segundo Caderno, O Globo, 2 de junho de 2009

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Bem-vindo ao futuro.

30.5.09

vingança

Homem de bolso: o corpo masculino fica mais magro, mais seco e mais econômico, como exige a estética do futuro. O baixinho está na moda.

Homem pequeno. Também conhecido por baixinho, magrinho, franzino, pocket. Eles estão na vanguarda das festas, da música, do cinema, dos modismos em geral. E, sim, pode ser mera coincidência — quis a natureza que estes menores fossem talentosos, modernos —, mas pode ser também uma tendência, o início de um reflexo do comportamento atual. É claro que sempre vai haver homem grande, fortão, mas eles não têm o 'physique du rôle' do momento.

Caderno Ela, O Globo, 30 de maio de 2009

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Minha irmã sempre disse que eu era um cara tão bacana que ninguém nem percebia a brincadeira de mau gosto que a natureza tinha feito comigo. Chegou a hora de virar esse jogo. Foram quase vinte e sete anos de traumas esportivos, boicotes amorosos e constrangimentos estéticos até que o mundo se curvasse ante o arrojo da minha proposta: o mini-homem virou moda.

O dinheiro jogado fora nas melhores academias de natação, as consultas ao endocrinologista, o olhar de frustração da família, tudo ficou no passado. É tanta crise de paradigma à volta que roubaram até uma das poucas crenças em que a humanidade ainda se sustinha - a de que tamanho é documento.

Na crista da onda, vou abrir mão de pensar na consistência simbólica disso tudo pra ficar só surfando e curtindo a maré. Perdão pela leviandade, mas de um dia pro outro virei estandarte do appeal hegemônico e não tenho mais tempo a perder.

Me liga, me manda um telegrama, uma carta de amor. Só não marca touca que eu tô tendência.

20.4.09

sagrada libido

uma menina preta
de biquíni amarelo
na frente da onda
que onda que onda
que onda que dá
que bunda

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Troco meia poesia brasileira contemporânea por Caetano quando tara.

5.4.09

da caridade de quem nos detesta

Quer ver um bom show de humor? Acompanhe os debates que o Ministério da Cultura vem promovendo sobre a reforma da Lei Rouanet. Não que as propostas do governo tenham alguma graça: risível é a reação dos produtores culturais, vassalos fiéis do capetalismo neoliberal. A gestão de Gilberto Gil marcou uma tal guinada conceitual da política cultural brasileira que os quase dois mandatos não deram conta de resolver objetivamente muita coisa. Ainda assim, Gil merece aquele abraço por ter levantado lebres como a reorganização dos modos de produção com o boom das mídias digitais, a economia solidária da rede de Pontos de Cultura e a indispensabilidade do diálogo com o lado sério do poder, como as pastas da Fazenda e do Trabalho. Já se disse que Gil foi o Lula do Lula. Faz sentido. Além de conferir um traço lúdico à agenda política, sua presença monástica lembrava à Esplanada dos Ministérios, escândalo após escândalo, as esperanças que se havia depositado no governo de um ex-líder sindical. Ao pegar o bastão, Juca Ferreira, partidário e artesão dessa mesma ética, tratou de dar sequência à reforma da lei que, desde 1991, financia os filmes a que você assiste, os museus que você frequenta e até aquele concerto ao qual você nunca foi, mas um dia, quem sabe? Mas, na verdade, a Lei Rouanet se transformou, depois de 18 anos de existência, numa das maiores perversões do nosso Legislativo. Da intenção original em estimular o hábito do mecenato no empresariado brasileiro ascendeu um vício de mercado em que se reprisam nomes, obras e marcas. Canonizada pela gestão de Francisco Weffort, a Lei Rouanet tem permitido que a Petrobras, o Itaú ou a Vivo façam uso de projetos culturais para lustrarem a reputação junto a seus clientes. O problema é que isso é feito com dinheiro de renúncia fiscal, num oba-oba que há quase duas décadas dá de mão beijada ao marketing institucional o direito de escolher o que vale mais, um filme do Bressane ou um show da Ivete (em que pese todo o meu respeito à entidade). A cultura brasileira designou políticas privadas para verbas públicas. É isso o que Juca Ferreira e sua equipe do MinC tentam, didaticamente, explicar à nata sonsa da classe artística. A mudança do modelo de financiamento, face à inclusão de critérios públicos que julguem o valor de cada projeto, apenas restitui ao governo uma responsabilidade inegociável com o mercado. A turminha do Rio e de São Paulo, por seu lado, faz barulho pra chamar isso de dirigismo político, como se nossa produção cultural não estivesse sendo dirigida pelos nefastos princípios do marketing, a saber, o potencial de retorno de imagem para o patrocinador, o apelo midiático dos artistas envolvidos nos projetos e demais baboseiras do gênero. Na política, a arte da polis grega, quem não sabe brincar não desce pro play. A atitude do MinC só se engrandece frente ao despreparo intelectual desse naipe de almofadinhas que fez da mendicância um estilo de vida e, imerso em Síndrome de Estocolmo, gostou de sujeitar a criação simbólica ao esquema imperativo da economia. Só que é muito pouca gente sobrevivendo há anos sem um arranhão. Brindemos: um Ministério que recupera a dimensão social do trabalho na cultura parece querer bem mais para nós que uma piscina cheia de ratos.

28.3.09

virou manchete

O Rio de Janeiro continua sendo. A prova é Silvia Machete, a cantora que rima com chacrete.

Ela é mais afinada que as cantoras da sua geração, mas não acha isso grande coisa. Sua música safada para corações românticos inclui Cindy Lauper, Celly Campelo e Guns n’ Roses sem cair na arapuca do ecletismo, mas ela tampouco vê nisso algum mérito. Rebola no bambolê, sopra a bolinha de sabão e tira sarro da condição feminina enquanto assovia e chupa cana. Silvia Machete era o que a gente tava precisando.

O país das cantoras instituiu em torno de uma carreira que já andou bem próxima do meretrício uma suspeita divinização, quase como um projeto glamouroso de endireitamento social. Basta olhar pra Gal, que começou ninfa e descalça para terminar uma quatrocentona com joanetes. As três mulheres da MPB na década de 90 também não fugiram do esquemão: Cássia Eller morreu quando esboçava perder o gume; depois de gritar pelos que tinham fome, Adriana Calcanhotto revelou que gostava mesmo era do bom gosto e dos bons modos; e Marisa Monte, que já nasceu diva, incorporou o tatibitate para se comunicar com a plateia.

Com a seca da espontaneidade, a língua portuguesa começou a dar guarida pra cantoras mais frankfurtianas que pós-tropicalistas (Mônica Salmaso, Ná Ozzetti, Teresa Cristina, etc). Muita postura, muito purismo e pouca libido, numa perigosa desatenção dos valores introduzidos pelo rock na música popular a partir de 1950. Eu me perguntava onde andava a parceria criativa entre a música e o sexo no Brasil até reencontrar a alegria hormonal num show de Silvia Machete, uma garota que, não sendo nenhuma santa, só quer curtir.

O show em que canta Carlos, Erasmo, o disco de 1971 do Tremendão, mostra que o Rio de Janeiro continua lindo porque ainda é a matriz do despojamento que o Brasil tem o dever de ensinar ao mundo. Marisa Monte, inclusive, esteve no Teatro Rival semana passada pra reaprender essa lição. Como ela, Silvia carrega a saborosa prosódia da alta Zona Sul, mas parece menos culpada em fazer uso de sua bem-nascença na vida e de seu tônus muscular no palco. Silvia Machete não tem a pinta antropológica de quem se apaixona pelos laços comunitários da Portela.

O barato totalmente carioca de Silvia – como explicado por Joaquim Ferreira dos Santos – é não se levar a sério. Parece pouca coisa, mas é muito quando se quer pisar no terreno mais concorrido da mais popular tradição cultural brasileira. Ao misturar música e circo, delicadeza e humor, Silvia faz a festa com as vitórias do Modernismo, do Feminismo e do Tropicalismo sem precisar de qualquer ismo para justificar o que faz.

Ao vê-la em cena, ninguém imagina no que – nem pra quem – Silvia Machete vai dar. Em se tratando de uma nova cantora brasileira, este é o maior elogio possível.

7.2.09

ibope

As novelas brasileiras ajudam a moldar ideias sobre comportamento de maneira crítica, segundo dois estudos recentes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Os estudos analisam o papel da televisão em influenciar mudanças significativas nas taxas de fertilidade e divórcio nas três últimas décadas no Brasil, onde sessenta a oitenta milhões de pessoas assistem regularmente a novelas noturnas.

BID, 29 de janeiro de 2009

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As emoções que sacudiram o país nos últimos meses me fizeram pensar que a perda do hábito de acompanhar novelas tinha sido só mais um dos equívocos da minha adolescência. Mas com “Caminho das Índias”, Glória Perez já está conseguindo me provar que o descaminho é que estava certo.

Fã ardoroso quando criança, desisti das novelas na mesma época em que deixei Januário de Oliveira narrando sozinho o Campeonato Carioca pela Bandeirantes (que ainda nem tinha se apelidado de Band). É que chega uma idade em que você abandona tudo em nome da ilustração e comete loucuras pra impor respeito por aquilo que parece ser. Se alguém pergunta o que aconteceu no capítulo de ontem, você não sabe porque estava lendo “O Mercador de Veneza”; em vez de citar Solange Couto, você passa a recitar Lautréamont; já quando o assunto é o que separa o futebol de Dodô e o de Kaká, seu prazer é comentar a distância secular entre Leibniz e Nietzsche.

Minha conduta de não-espectador foi assim formulando um arrazoado desprezo por tudo o que a televisão aberta poderia oferecer ao mundo, o que, somado ao desprezo que os canais pagos nutrem por gente como eu, acabou por resultar numa relação de mútuo desinteresse muito distante da intimidade de outros tempos. Eu pensava que não precisava da televisão brasileira para nada e ela, esperta, sempre soube que precisava menos ainda de mim. O que ninguém sabia é que uma reviravolta viria a apimentar este caso: “A Favorita”.

Pode ser que seus colegas de trabalho tenham falado da novela, mas se você não encontrou comigo recentemente ainda não sabe até onde “A Favorita” foi. Resisti o que pude, mas da abertura aos nomes dos personagens, tudo em “A Favorita” era genial. Vasculhe sua memória e encontre outra novela que tenha levado Hans Donner a criar quadrinhos noir embalados por tango eletrônico ou que tenha dado a Ary Fontoura batismo melhor que Silveirinha. A caixa de comentários é sua.

João Emanuel Carneiro é um daqueles cérebros que a gente pode passar a vida sem conhecer só pela vergonha de sintonizar a Globo no horário nobre. Autor de admirável capacidade de sugestão, ele tornou “A Favorita” um prato cheio para todo tipo de público e lecionou sobre os encargos de uma novela das oito na construção da subjetividade da massa. Experimentar depois de adulto a dependência que um bom folhetim produz no espectador me fez aceitar melhor o fato da Rede Globo ser o que é lucrando o que lucra a cada reclame do plimplim. Há de haver algum prêmio para quem conversa com o Leblon e Pernambuco, o eunuco e o garanhão sem perder o fio da meada.

Mas “A Favorita” só foi tão interessante por assumir os deveres estéticos e políticos da mais poderosa grade de entretenimento do país sem abrir mão do risco. Em torno de uma história que justapunha música sertaneja e aquilo que Jung chamaria de processo de individuação inconcluso, a novela questionou leis morais com sutileza literária e atingiu a proeza de sofisticar a discussão sobre o único assunto capaz de desavir a humanidade: a luta entre o bem e o mal.

Este mote tão antigo quanto inesgotável matizou o caráter de personagens como a cafetina covarde (Elizângela), o galã nervosinho (Cauã Reymond) ou a madame culta e idiota (Glória Menezes). Ao obedecer à premissa de que o que temos em comum é uma carne sujeita a espinhos, a novela riu da fragilidade da opinião pública e colocou nossa pressa de julgar na berlinda. Como na vida real, o bonito em “A Favorita” era que todo mundo tinha o rabo preso. A exceção era a mocinha, que, interpretada por Cláudia Raia, caía no vacilo pior de ter a língua presa.

Com uma galeria mais ou menos fixa de estereótipos, a Globo costuma querer retratar a festejada diversidade social brasileira em suas tramas. Nessa intenção, dá a todo personagem desprivilegiado a obrigação de conquistar o espectador a ponto de fazê-lo “desculpar” o aspecto embaraçoso de sua identidade. “A Favorita” teve o mérito de fugir dessa caretice e alfinetar preconceitos propondo uma relação entre rótulo e produto livre de dano ou absolvição. Não é toda novela que apresenta um negro rico e pilantra (Milton Gonçalves), um analfabeto bobo e machista (Alexandre Nero) ou um gay mimado e sexualmente em conflito (Iran Malfitano).

Parece que a maior diversão de João Emanuel Carneiro ao escrever essa narrativa foi jogar com as expectativas a todo o tempo e perspectivar valores como a consanguinidade enquanto meros efeitos de uma produção histórico-cultural. Mas, mesmo revelando o trânsito de nossas convicções, “A Favorita” conseguiu se tornar mais do que uma brincadeira subversiva por respeitar a atualidade do princípio regulador da experiência humana - a velha luta entre o bem e o mal.

E foi ao vestir o mal com a fantasia de querubim que a novela encontrou seu maior acerto. Patrícia Pillar conferiu consistência dramática a um personagem que poderia ter se tornado uma caricatura, mas virou o cerne e o charme de “A Favorita” pela combinação de complexidade psicológica, habilidade retórica e indefectíveis cachinhos loiros. A gloriosa escalada de Flora ao poder se fundamentou em sua capacidade de ver e ouvir. Espécie de observadora onisciente da história, a ex-detenta podia passar para trás qualquer adversário por saber exatamente onde a ferida de cada um doía. A autenticidade de sua estratégia, assim, estava na munição: com balas, se mata; com o discurso, se domina.

Mas como “A Favorita” tinha pavor de clichês, seu antagonismo não podia se basear no esquemático apelo da culpa e da inocência. Para demonstrar que o princípio regulador da experiência humana nos é intrínseco e continua o mesmo desde que o mundo é mundo, a novela deu ao público a oportunidade de olhar para vítimas e bandidos sob o mesmo crivo. Por esse motivo, seu enredo gravitou em torno de uma disputa de criança como aquelas que eu e você tivemos com nossos irmãos, primos ou vizinhos. E antes de abrir a plenária para julgamento, a lente da verdade perguntava: quem aqui saiu ileso das questões da infância?

Flora não saiu. E não ser a favorita frustou seus centros emocionais até resumir seu self num obstinado projeto de vingança. A raiz de sua psicopatia era, assim, tão popular quanto “Beijinho Doce”, o antigo sucesso de Cascatinha & Inhana. Ao explicar a origem de suas motivações, a narrativa ousou em defender um personagem indefensável, argumentando que Flora, tal como Lúcifer, foi apenas um anjo que se confundiu no meio do caminho.

O que cativou na maior vilã da televisão brasileira não foi a obsessão, a frieza ou a ironia: foi a plausibilidade. Flora Pereira da Silva era apaixonante por dizer tudo o que nosso lado perverso diria, encarnando o demônio que cada um de nós esconde com o know-how que só uma mulher inteligente tem. Desde que o mundo é mundo que a história de Adão alerta sobre o perigo de certas influências, mas até hoje o Ibope tá aí pra mostrar do que é feita nossa profana alegria.

26.1.09

hahahahaha

A Secretaria de Saúde determinou a interdição e o recolhimento de 10.044 unidades do condicionador infantil da marca Turma da Mônica. O Centro de Vigilância Sanitária constatou desvio de qualidade na fabricação do condicionador. A polícia investiga o caso e diz já ter provas da participação de Cascão, 8 anos, no crime.

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Nosso Marcus tá de volta, melhor do que nunca.

20.12.08

presente

Uma amiga gênia gosta de proclamar aos quatro ventos o real propósito de se fazer poesia no Brasil de hoje: comer gente. Foi um achado e um alívio quando ouvi isso pela primeira vez. Finalmente me era apresentada uma atividade docemente irresponsável, cujo alvo não seria outro senão a recompensa para minhas flechas mais vis.

Desde então, aprendi a apelar aos versos cada vez em que a coisa aperta. Mas como a coisa tem apertado muito ultimamente e como nunca tive talento para a arma poética por excelência - a concisão -, descobri uma forma de me virar nos trinta misturando a música e a poesia dos outros. Se há algum trunfo em ser brasileiro é esse jeitinho que a gente sempre arruma pra se dar bem.

Há dois anos atrás resolvi publicizar meu jeitinho num podcast chamado Bagatela. Desrespeitando diferentes direitos autorais e amaciando o fiapo de voz em mixagens francamente caseiras, joguei nas onze pra ver no quê que dava. Deu gol. Em novembro de 2006, o blog Musicoteca reuniu meus posts, de maneira tão secreta quanto generosa, num disco virtual, o primeiro do “artista” Leandro Id Lascado. Várias pessoas entraram em contato com o trabalho através desta coletânea e me escreveram a fim de incentivá-lo, sem jamais se suspeitarem vítimas de uma infame estratégia de sedução.

Foi, assim, ao conectar a música e a poesia dos outros que eu consegui comer muita gente, ainda que isso não me tenha feito comer ninguém do modo licencioso como você está pensando. A coisa se deu no sentido oswaldiano do termo, essa maravilhosa acepção que me permite confessar, aqui entre a gente, que eu também me deixei ser muito comido por aí. A moral da história é simples: fazer poesia no Brasil de hoje só dá certo para quem aprendeu com Bruna Beber a se ligar menos na imortalidade do que na antropofagia.

Em novembro de 2008, eu estava absorto em muitas vãs filosofias até que o inesperado me fez mais uma surpresa. Pingou na caixa de entrada uma mensagem co-assinada pela Andrea e pelo Délio, dois gajos que cursam Comunicação na UFMG e resolveram entregar como trabalho final da disciplina de Diagramação e Produção Gráfica uma proposta de encarte do “meu” disco. Eu, que já andava bobo com a repercussão daquelas mixagens amadoras entre pessoas que eu nem conhecia, recebi o convite para ver essa “obra” transformada em inspiração prática para alguém com os únicos olhos possíveis - os rasos d'água.

Andrea e Délio produziram um trabalho lindo porque foram ao cerne da idéia de colagem, aquilo que, de uma forma ou outra, procuro fazer com os sons. Mas, com uma delicadeza que é só deles, ergueram novas pontes e escreveram outras mensagens em cima do material de partida. O resultado dessa experiência, o presente de Natal mais poético que eu poderia ganhar, você confere aqui.

Já escrevi que às vezes dá vontade de / subverter a ordem / abandonar o script / esquecer a proposta / e fazer da vida / uma notícia nova

Para mim, o ano de 2009 é uma notícia toda nova. E eu quero o mesmo pra todo mundo que tem o carinho de passar aqui de vez em quando.

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Andrea e Délio, meus parceiros e agora amigos, valeu!

17.12.08

ensaio sob a cegueira

Com alguns minutos de filme já fica claro que Meirelles escolheu, dentre os possíveis, o caminho mais óbvio para expressar nas suas imagens o tal estado de cegueira por excesso de luz. É como se o mundo estivesse dentro de uma lâmpada em curto, que dilata ao limite do inconveniente os micro-segundos que antecedem seu estouro. Tudo converge para a sensação, reforçada pela trilha sonora (show de horrores cujo ápice é a versão em xilofone para uma famosa suíte de Bach), de que esse material, embora destinado a refletir o mundo em sua totalidade e incluir o homem na engrenagem do tempo, não resiste ao toque. Meirelles entra para o time dos cineastas que fazem o cinema mais verdadeiramente publicitário das últimas décadas. Cortados os fios que ligavam o mundo à câmera, resta brincar de visionário e – sua real empresa – esbaldar-se com o colapso social e com o apodrecimento moral que as cenas acusam sem a menor condição de superar.

Luiz Carlos Oliveira Júnior . Contracampo, edição 92 .

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Há coisa de um ano e meio, ponderei aqui que toda boa arte deveria querer colocar o espectador contra a parede de seu berço esplêndido, localizá-lo na engrenagem da desgraça coletiva e oferecer em troca nem constrangimento nem redenção, mas a descoberta toda inédita de que, para o bem e para o mal, está vivo. Àquela altura, a idéia era fazer uma defesa das virtudes de “Proibido proibir”, longa de Jorge Durán que, embora bem-recebido pelo público e pelo bonequinho do jornal, fora qualificado como um filme vulgar por parte influente das pessoas que conheço - aquelas que entendem mesmo de cinema. O acabamento das imagens e a edição final da obra, diziam, flertavam com o mau gosto.

De todas as artes, a sétima é a única realmente capaz de formar ou divorciar casais, construir ou romper amizades antigas, provocar afetos ou desavenças no hype society. É que, para os círculos mais intelectualizados do Rio de Janeiro – ou de qualquer grande centro urbano –, o cinema não é só uma poderosa forma de arte. É uma religião com os mesmos deuses, apóstolos, profetas, juízos e pecados que regulam a vida dos iletrados. A diferença é que os iletrados se reúnem em culto aos domingos e os intelectuais, durante a semana. Cinéfilo que se preza foge de sessão lotada como o diabo da cruz.

A palavra sagrada da cinefilia brasileira atende pelo nome de Contracampo, publicação que tem servido como um interessante celeiro de ensaios e apontamentos sobre este universo artístico. Seu compromisso principal é pensar o cinema, a linguagem que se tornou o próprio pensamento do século XX. Assim, a Contracampo se consolidou nos últimos anos como uma espécie de Cahiers du Cinéma virtual e tupiniquim, figurando no eldorado de nove entre dez aspirantes a críticos de cinema do país.

Eu já tive o prazer de freqüentar aulas de Luiz Carlos Oliveira Júnior e de receber sua presença - deveras ilustre - na minha casa algumas vezes. Por isso mesmo sua resenha de “Ensaio sobre a cegueira” entalou na garganta. Não apenas porque, apesar dos defeitos, eu veja predicados no filme de Fernando Meirelles, mas porque não posso engolir que um sujeito tão inteligente e querido como Luiz Carlos Oliveira Júnior cometa o erro de analisá-lo em evidente cegueira pelo excesso de luz própria.

Com algumas linhas de crítica já fica claro que ele escolheu, dentre os possíveis, o caminho mais óbvio para expressar a decepção com o quinto longa de Fernando Meirelles. A vaidade de cada uma das frases fez do seu texto uma brincadeira de oratória, excitação estética no vazio que não resiste ao toque, tal qual uma bolha de sabão. Só que a obviedade foi mesmo uma escolha para Fernando Meirelles: valorizando uma mensagem mais importante que qualquer dramaturgia, a parábola de José Saramago foi transformada num produto de entretenimento comercialmente viável, visto por milhões de pessoas ao redor do mundo e assimilado por bom número delas. As alegorias do texto de Luiz Carlos Oliveira Júnior, por sua vez, sobrepuseram a afetação à essência, alcançando uma pequena audiência que se legitima em aplausos mútuos.

Sou ignorante em cinema, mas tenho uma pequena noção da missão social do exercício crítico. E, embora sem credenciais para duvidar que o diretor de “Cidade de Deus”, com seu estilo narrativo e manobras de montagem, faz filmes publicitários, eu posso questionar que grande erro haveria de ter nisso. O cinema de Fernando Meirelles é verdadeiramente publicitário; a crítica de Luiz Carlos Oliveira Júnior é mentirosamente purista.

“Ensaio sobre a cegueira” tem mesmo seqüências infelizes e recorre a diferentes clichês (dentre eles, os canhestros trechos com a narração em off de Danny Glover). Mas foi por saber que a mensagem de seu cinema era maior que concessões como esta que Meirelles produziu um filme capaz de interessar aos mercados, levar minha família ao cinema do shopping e despertar na tia Mara, fã de Alcione e Paulo Coelho, olhos de susto – “menino, olha só como a gente é!”.

Não se trata de celebrar filmes feitos de boas intenções, nem tampouco de negar à crítica o delicioso privilégio do esculacho. É preciso alargar o foco para refletir na razão que faz da Publicidade uma linguagem tão possante hoje, enquanto o “Cinema de autor” agoniza em sua piada cada vez mais interna. Antes de culpar as ciladas do capitalismo ou a mediocridade intelectual de meia humanidade, a gente pode, inclusive, pedir ajuda aos universitários.

O imediato prestígio internacional de um cineasta brasileiro como Fernando Meirelles indica outras coisas para além de uma mera prostituição da “grande arte”. Enquanto a crítica se perde na nostalgia de um cinema que nunca existiu ou existirá, vai se isolando nesse papel ressentido e deslumbrado, criança autista com uma pistola de plástico às mãos. A resenha de “Ensaio sobre a cegueira” exemplifica uma crítica que, desligada de tudo o que não cabe no Cineclube do Estação, serve para nada - ladra, ladra, mas não consegue morder nem o próprio rabo.

Gilles Deleuze argumentava que, dentro de uma canção, o refrão era um espaço semelhante ao da nossa casa: a melodia é um vasto mundo onde podemos nos perder, mas, reencontrado o estribilho, voltamos a um lugar de segurança onde reconhecemos cada coisa em seu lugar. Por esse motivo que certos chicletes de Stevie Wonder, The Carpenters ou do Roupa Nova nos soam sempre tão naturais. São canções que não nos ameaçam, apenas dizem que está tudo bem.

Ao analisar a direção de “Ensaio sobre a cegueira”, Luiz Carlos Oliveira Júnior tentou ilustrar um maestro que, podendo redimir o mundo numa ópera sobre a ruína humana, optou por assobiá-la numa triste e banal canção pop. O único problema é que Fernando Meirelles sabe melhor do que ele até onde o canto lírico e as gomas de mascar podem ir.

Viciada em erudição infantil, a crítica cinematográfica acredita mesmo que a salvação se esconda nos limites da sala escura e que as cenas de um filme possam superar a realidade. José Saramago e Fernando Meirelles se contentam em discuti-la. As coisas ficam mais fáceis quando não se tem que provar nada pra ninguém.

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Júnior, Bárbara não lhe adora, mas lá em casa a gente te ama. E, a propósito, estamos com saudades.

7.12.08

indicativo

a gente gasta a vida para
descobrir a vida perdido no
que foi investido no que tá
por vir muito esquecido de
estar a ser

. . . . .

para andrea, bruna, carulina e tula

5.11.08

negro é lindo

I can’t say if those hand-pressed looking shirts are made of the finest Egyptian cotton or not, but the point is they suggest it. The simplicity of Obama’s lean, monochrome suits and solid blue ties makes every other pol appear porky and plebeian. It’s not just the clothes, of course. It’s the wearer - his carriage, the loping grace of his walk to the stage. What's interesting is the androgynous quality of the Obama appeal. He’s almost like an avatar sent out dressed as himself to turn red states into blue. Obama is too contained to have the kind of sex appeal we are used to in public men whose drive to seduce sometimes becomes literal when it comes to the opposite sex.

Tina Brown . The Daily Beast . 28 de outubro de 2008 .

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Ninguém ainda conseguiu entender se Barack Obama está a serviço de Deus ou do diabo, mas, seja ele arauto de quem for, a boa nova já está entre nós. A corrida pela Casa Branca tem mais impacto no meu - e no seu - cotidiano do que qualquer eleição nacional. Mesmo assim, pouco interessava quem efetivamente viria a se sagrar o novo dono do mundo. No colégio eleitoral da minha - e da sua - intimidade, o dono do mundo já era ele.

Barack Obama é a mais charmosa celebridade produzida pelo star system nos últimos anos. Seu calor mestiço, seu sorriso acachapante, suas mãos e pernas imensas tornam qualquer astro de primeira grandeza em vedete decadente. George Clooney, Gisele Bündchen, Marilyn Manson: os medalhões do mainstream parecem fúteis, antinaturais ou melancolicamente dispensáveis. A gente já tem coisa melhor pra admirar.

Desde o anúncio oficial de sua candidatura que Obama, tal como a Marquesa de Mertuil, se transformou num virtuose do autocontrole. Afrontaram seu prumo com toda sorte de investida, mas nem Wall Street nem a Otan foram o bastante para balançar o alicerce tibetano. Só na última segunda-feira, ao saber da morte da avó, ele se deixou flagrar num momento de vulnerabilidade. Obama chorou e então tudo ficou mais claro: o fato político e simbólico do ano não é a ascensão de um presidente negro. É a ascensão de um presidente lindo.

Essa campanha, por outro lado, viu John Mccain fazer o papel de cachorro morto, um tipo bom de se chutar. Ao nomeá-lo seu representante na disputa presidencial, os republicanos deram a Obama a oportunidade de se tornar melhor do que já é por natureza. Assim, a vitória do democrata se deve menos à quebra dos Lehman Brothers e ao sucessivo dominó econômico do que ao arrojo do seu traçado mandibular. Um país fissurado tanto pela eficiência como pelas cirurgias plásticas não elegeria um veterano de guerra satisfeito com liftings tão toscos.

A bem da verdade, Mccain se sobressaiu ao menos em um quesito: esposa. Se Obama conquistou o eleitorado por manter teso o arco da promessa, Cindy Mccain representou, com assustador requinte, a banda podre do sonho americano. Sua figura, privada de qualquer referência à carne e ao osso, foi um contraponto à miséria discursiva do marido, deixando entrever alguém capaz do escândalo biográfico da década passada, quando desviou lotes de analgésicos da Ong que administrava para animar sua própria chapação. Deusa, louca, feiticeira. Ela é demais.

Mas o páreo estava ganho desde a partida e foi outra mulher quem começou a transformar Obama em presidente. No discurso da convenção, em fins de agosto, Hillary Clinton pôs no mesmo mulato que tentara desqualificar durante as primárias uma fé que a gente só coloca em quem confia de verdade. E tendo Hillary Clinton passado por tudo o que já passou na vida, não caberia a nós julgar o novo objeto de suas convicções. No fim das contas, a gente percebeu que, ainda que ninguém entenda qual perfil político seu histórico de votação no senado projeta, não importa se Barack Obama está a serviço de Deus ou do diabo. A sugestão de sua nobreza vale a pena por si só.

Em sua análise sobre o borogodó cool do então candidato, Tina Brown acerta em quase tudo, menos em pressupor androginia no appeal de Barack Obama. A singularidade do novo presidente está em saber resolver, como passe de mágica, uma implausível equação que iguala virilidade e elegância. Sua ginga aparece, no arquivo recente da luta épica entre o apolíneo e o dionisíaco, como dado só comparável à cabeçada de Zinedine Zidane na final da Copa de 2006. Só que o comedimento majestoso de Obama, ao contrário da explosão chique de Zizou, propõe que toda força é muito mais forte quanto mais subordinada ao domínio insinua estar.

Hoje não é um dia histórico porque um preto chegou ao topo do império, mas porque chegou ao topo do império um homem que parece encarnar todas as virtudes cabíveis nos melhores anúncios de perfume. Jovem, forte, autêntico, decidido, moderno, inteligente, cosmopolita, intrigante. Durante os últimos meses, Barack Obama ofereceu a certeza irrefutável de que é o homem que faltou na minha e na sua casa. Ao que tudo indica, alguns milhões de lares americanos sentiram o mesmo.

11.10.08

méditerranée

Minhas hemácias são menores que o normal. Há anos que o laudo da Microcitose me acompanha sem que a medicina forneça explicações sólidas sobre como meus atos cotidianos estão implicados neste quadro. A anemia não aparece há alguns hemogramas, mas nunca consegui esboçar reação semelhante no volume globular médio, que permanece estacionado numa faixa entre 10 a 15% abaixo do conforto da regularidade.

A gente aprende quando criança que os glóbulos vermelhos estão envolvidos num processo tão importante quanto todos os outros milhares de processos do corpo humano: o da oxigenação dos tecidos. Mas, para além disso, sempre me chamou a atenção o fato deles serem o específico tipo de célula que existe em maior quantidade no sangue de uma pessoa. Abraçando o chavão, seja lá o que isso queira dizer, é certo que isso deve dizer alguma coisa.

Hoje eu acordei cafona como uma metáfora e, deixando que os exames de sangue fizessem morada na minha fantasia da vida e da morte, resolvi pensar que a Microcitose – o diagnóstico de que meu volume globular médio é menor que o normal – fundamentava os padrões de comportamento obcecados pelo minimalismo, as obrigações subjetivas com a discrição e a falta de fôlego para as mais banais atividades pelos quais tenho historicamente culpabilizado minha psique. Talvez eu esteja sucumbindo ao causalismo somático do discurso científico contemporâneo – aquele mesmo que assegura que somos o simplório produto do que nossos genes, enzimas e hormônios querem que sejamos.

Uma doutora surpreendida com a perícia com que descrevi sintomas mais corriqueiramente narrados em seu consultório me perguntou ontem se eu era médico. Respondi que, apesar de nunca ter cogitado a carreira, o Google tem prestado socorro na sofisticação do meu vocabulário clínico. Foi ele, mais uma vez, que esclareceu o que vinha a ser a Talassemia, um termo com o qual esta mesma doutora também conseguiu me surpreender, associando-o, de forma inédita, a uma possível etiologia das minhas hemácias pequenas.

A Talassemia é uma doença que pode acometer a produção de hemoglobinas, resultando na alteração do tamanho dos glóbulos vermelhos. Em suas formas brandas, não chega a ser uma patologia digna de nota, mas é óbvio que mobilizou minha consideração e alguns minutos de estudo antes mesmo que os exames capazes de comprovar tal predisposição fossem realizados. O mal não estava me parecendo particularmente interessante, até descobrir que ele também pode ser conhecido como Anemia do Mediterrâneo.

Peço perdão aos talassêmicos e aos que já sofreram qualquer dano por conta desta enfermidade, mas, para um sujeito com as minhas origens, a minha cor de pele e o meu saldo bancário, foi impossível evitar a festa ao articular esta remota perspectiva diagnóstica a um prestígio genético que jamais sonhei ter. A doença deriva de uma deformidade na carga hereditária de indivíduos naturais da região do Mediterrâneo, o mar que banha igualmente a Europa, a África e a Ásia, mas que, por motivos de força maior, entrou mesmo no imaginário ocidental como a reserva geográfica do glamour. De Barcelona à Côte D’Azur, cada mergulho no Mediterrâneo não pode ser outra coisa senão um flash.

O pedido do exame está dentro da mochila até agora. Já são mais de 24 horas transcorridas entre a consulta médica e a visita ao laboratório, denunciando uma negligência que não costuma acontecer quando estou sob o jugo de qualquer presságio. Mas cadê, mermão, cadê a coragem de ir lá e ver desconstruído o meu castelo de baralho, a minha primeira e única chance de idealizar uma árvore genealógica recheada de heroísmos mouros ou aromas da Provence?

Pense comigo: não há risco para um anêmico crônico que a ingestão reforçada de ferro e ácido fólico não possa cobrir. Mas o benefício de continuar nesta ignorância e ter o direito de especular um passado glorioso para minhas raízes sanguíneas não há Mastercard que pague.

13.9.08

large hadron collider

quis reordenar partículas ver de
perto o buraco negro brincar
da ciência de arriscar

- motivos eletrostáticos
aos montes para colidir -

só que a matéria mais pesada
a explicação de tudo não
estava naquele túnel

era prêmio secreto pra
quem sabia
voltar ao
ponto de partida


. . . . .

para minha mãe.

7.9.08

como se esbarrar nas coisas fosse não desconsiderá-las em sua situação de lugar, mas sim poder dar a elas novas conotações de espaço, tempo e sentido; ou: como se esbarrar nas coisas fosse interpretar os estímulos de luz na membrana ocular sob um código independente da mecânica organicista, ela esbarra nas coisas pelo que não está nelas, mas ali, bem perto. ergue um balé de desastres e descobre realidades escondidas entre o número um e o número dois ou nas infinitas capacidades do número oito. então, estar a seu lado é imediatamente querer também esbarrar nas coisas e procurar aquilo que não se sabe muito bem o que é, que não se imagina onde esteja, mas insiste em existir. ela esbarra nas coisas como se desenhasse um mapa feito sem margens.

. . . . .

pra joana, que esbarrou em muita coisa desde então, menos nessa bobagem que lhe fiz. rio, 8 de janeiro de 2004.

21.8.08

faringite

agosto não casa com muco não
casa com desgosto aposto que
não causa

queria te explicar em
detalhes mas falo pouco

tanta saliva na boca em
agosto eu não sou
homem
pra engolir

19.8.08

licença poética

retrato a quatro mãos sobre dobradura no portal literal. alice sant'anna: hoje no cinemathèque, amanhã numa livraria perto de você.

13.8.08

demonha

Como todo americano que deu certo - embora não haja americano que não o tenha feito; se há, é porque não o fez ainda -, Condoleezza Rice foi uma universitária brilhante, uma concorrida especialista em gestão estratégica e uma adepta do bom-mocismo cultural. Foi a atuação no conselho administrativo da Sinfônica de San Francisco, ao qual prestou seu talento na era Blomstedt, que introduziu Condoleezza à família Bush, para quem se tornou, desde o fim dos eighties, uma amiga maravilhosa, conselheira, garantia de paz.

Condoleezza Rice deu certo porque se interessou pela causa negra que vale a pena: o petróleo, aquele tema vez ou outra chamado, no jargão político, de 'relações internacionais'. Basta reparar na sua obsessão pelo Oriente Médio ou pelo antigo território soviético, sobre o qual sabe muito mais do que os marxistas jamais ousaram saber. Deve ser por isso que a mesma Condoleezza que em 2003 tentou convencer o mundo de que a invasão do Iraque era outra coisa além de um saque mineral é quem se acha agora no direito de dizer que a Rússia não pode resolver, de modo olímpico, oportuno e razoavelmente higiênico, uma questão de vizinhança com a Geórgia.

Não é nada fácil reconhecer que, tendo George W. Bush as capacidades cognitivas que tem, os últimos oito anos da política internacional se devam quase exclusivamente a uma figura a quem seria incorreto odiar. Mas alguém ainda lembra que Condoleezza Rice, além de mulher, negra e aspirante a camerista, é a primeira solteirona a ocupar o cargo de Secretária de Estado do império?


7.8.08

pelos cotovelos

O que todo mundo temia aconteceu. Pelas mãos irresponsáveis de Hermano Vianna, Caetano Veloso descobriu o que jamais poderia ter descoberto: o blog.

Caetano Veloso é aquela figura pública que fez da crítica da crítica a sua principal ocupação. Se você toma ao pé da letra o que ele diz, ele, prolixo, argumenta que falta metafísica na sua leitura. Se você submete seu discurso a nexos mais elaborados, ele diz que não foi bem aquilo que tinha dito e, cavalo, reclama do chifre atribuído à sua tão franca oralidade.

Caetano Veloso se transformou nesse totem de vaselina através de uma história de amor com sua inimiga predileta, a grande imprensa. Em sua longa trajetória, ele já arrumou briga com a Folha, a Veja, a MTV, o New York Times e muita rádio do interior do Brasil pela missão heróica de defender a verdade das artimanhas da linha editorial. É que a música foi só um erro de percurso, o sonho velado de Caetano Veloso era mesmo ser chefe de redação da revista Piauí.

Esse descuido do acaso - a carreira artística - foi sua distração enquanto o mundo vivia revoluções importantes. Mas, entre o aclaramento de uma e outra polêmica envolvendo seu nome e eventuais participações de Diogo Mainardi ou Bruno Tolentino, Caetano Veloso foi aplicando sua atenção no trabalho de saneamento moral da grande mídia.

Absorvido por esse propósito, Caetano demorou alguns anos até perceber que a Internet apresentava alguma dissonância à ditadura discursiva da cultura de massa. Isso só foi acontecer agora, quando, ao experimentar o privilégio subjetivo de manipular um blog, ele pôde enfim compreender o que é ter uma mídia só pra si. Aí já viu, colega. Tá implantado o regime da verdade tropical.

Aos 66 anos de idade, Caetano Veloso pode dizer qualquer bobagem, direito do qual abusa desde os 26. A diferença é que, passados quarenta anos, ele não quer mais perder tempo dizendo bobagens bem ditas. Segundo uma citação de Brian Eno usada no release do blog, o potencial transformador da cibercultura sobre a arte tem a ver com o fato de que agora "as idéias são colocadas na esfera pública muito mais cedo e não completamente terminadas". Caetano Veloso levou isso tão a sério que em seu blog as idéias são arremessadas à tona muito antes de propriamente existirem.

O blog Obra em Progresso era para ser o acessório 2.0 de seu novo projeto musical, iniciado com uma temporada de shows no Rio ao lado da Banda Cê. Quem assistiu ao vivo ou pelo Youtube sabe que o despojamento Zona Sul dos amigos de Moreno Veloso anda mesmo fazendo bem a seu pai, que continua em forma para compor, cantar e fazer stand-up comedy acts. Num dos shows, por exemplo, ele tirou da cartola Três travestis pra criar a fenomenologia do caso Ronaldo. Em outro, disse que preferia Barack Obama a Hillary Clinton por gostar mais de preto do que de mulher. Decididamente, o cara não é bobo.
 
Bobo foi Hermano Vianna, que, sem conseguir resistir à armadilha celebratória da sharing culture, viu nisso tudo um gancho para propor que Obra em Progresso tivesse também uma faceta digital. Sua intenção foi tão boa quanto aquelas de que o inferno está até a tampa: de um espaço para hospedar vídeos e comentários de Caetano Veloso sobre o processo de criação de sua nova obra, o blog se tornou um diário pessoal fútil, palavroso e pretensamente antenado, despontando como exemplar das tendências mais desastradas da blogosfera.

Ninguém esperava que a tardia realização do sonho adolescente de Caetano Veloso – o de ter uma linha editorial só dele – pudesse ter como resultado um produto tão tardiamente adolescente. A cada dia, ele se deslumbra mais com a possibilidade de falar sem ter o limite imposto pelo tamanho da página, pelo intervalo comercial ou pela impaciência do público que pagou caro pelo ingresso e espera a próxima canção. E, nesse afã de falar muito sobre tudo o que não conhece, baseado na crença de que seu pensamento é a redenção da América católica, o inteligente Caetano Veloso revela o lado burro de sua notória vaidade.

Surpreendentemente, Caetano tem se investido do papel de blogautor e interrompido sua atribulada agenda de artista para conferir o que andam comentando sobre o que escreve. Poderia parecer uma iniciativa simpática, mas não é. Não é porque Caetano só se dá ao trabalho de responder a seus leitores – que vão de Antônio Cícero a Fernando Gabeira, passando por muito paisano e muito capataz – para tentar, de maneira tão aflita quanto rasteira, fornecer alguma consistência ao que ele mesmo diz.

Num dos shows da recente temporada carioca, ele deu uma "aula" sobre o preconceito contido na letra de Feitiço da Vila, o clássico de Noel Rosa. Fez seu número exagerando na piada e no tom pedagógico, até receber um sabão intelectual de Carlos Sandroni, estudioso das relações sociais que deram esteio à produção cultural brasileira no início do século 20, que desconstruiu sua interpretação do samba a partir de munições criteriosas. Errar todo mundo erra, mas Caetano, sem saber abaixar a cabeça, resolveu lançar mão de sua saída favorita: alegar que o que faz é entretenimento, e não ciência ou política, a mesma evasiva que, numa circunstância em que poderia apelar pra qualquer coisa, se autorizou a dar a Fidel Castro ao ser acusado de americanista por conta das declarações de mais uma entrevista "mal-editada".

Na realidade, o eixo central das preocupações de Caetano Veloso é poder tirar onda de esperto. Nesse empenho, ele se entrega a qualquer vergonha, como afirmar que lê simultaneamente Veríssimo e o The Economist pra justificar o caráter escorregadio de suas opiniões e de sua autonomia ética non troppo a destra, non troppo a sinistra.

O que irrita a mim, a Fernanda Young e a qualquer pessoa com o mínimo de juízo, contudo, é que, acreditando que a condição de artista o exime de prestar conta das besteiras que diz em cena pública, Caetano Veloso personifica a mais infeliz vocação de nosso tempo: a auto-isenção em relação à História. Ao se colocar num lugar de fala tão privilegiado, que o distancia das implicações do mundo real, ele, como um protótipo do pior sujeito pós-moderno, pode reconhecer do camarote Brahma que a política, a academia e até as mídias de massa estão fora da ordem, enquanto cada linha editorial que se vire pra formular verdades com o poder que tem.

Por desfrutar de um palanque de certa visibilidade, Caetano bem que poderia aproveitar sua adolescência tardia para fazer um retorno à literatura de Saint-Exupéry, que já ensinou a muita juventude os diferentes encargos do termo responsabilidade. Ou, quem sabe, sendo dado desde menino a maiores pretensões, procurar entender por que, em sua obra máxima, Platão defendeu a excomunhão dos artistas de seu sonhado modelo de república.

. . . . .

Esse post pelos cotovelos é o meu presente de aniversário, Caetano. E uma prova de gratidão por ter feito com que eu me interessasse mais por mim do que por você mesmo. Depois, por tudo o mais, mais do que por mim.

24.7.08

hard candy

a chuva que surpreendeu na noite de sexta-feira só animou a turma que foi à reabertura do espaço cultural sérgio porto. a poetisa alice sant’anna recitava 'de-lembrares' em frente à bandeira do brasil tingida de preto, obra de julia csekö. aos 20 anos, alice era destaque entre os poetas do cep com seu estilo 'seco e moderno', definido por chacal, organizador do evento. 'é como um diário, falo do dia a dia, sobre andar de ônibus e ver o mundo da janela. mas sou o contrário da performance, sou dura, não tenho nada de atriz', explicava. 'poeta com performance é um saco e aqueles caras que vendem poesia a um real também, traumatizam as pessoas'.

o globo, 14 de julho de 2008

. . . . .

em um território selvagem como a internet, onde se costuma gritar para ser visto, sua poesia sussurra, fugindo de truques vazios ou efeitos apelativos de linguagem. o verso introspecivo, doce e intimista, dialoga com as durezas do fluxo urbano, essa estranha e acelerada respiração. há diversas estradas na obra de alice. e caminhos a percorrer. alice é uma poeta em formação.

jornal do brasil, 21 de julho de 2008

. . . . .

no sábado, alice me contou que de-lembrares foi mesmo escrito em 2004. há quatro anos atrás ela estava na nova zelândia, tinha virado a última página de manuelzão e miguilim e se deixou levar pelas matutices da memória que só existe longe, lá em mutum. daí resolveu escrever um apanhado de linhas que deixam a gente com os olhos rasos d'água, pedindo que aquilo não acabe nunca. mas acaba.

acaba porque o ponto final é sua arma secreta: assim como lulu santos, alice sabe que há muita vida lá fora. sua poesia fala de cenas, lugares e sentimentos que eu e você conhecemos, mas, embaralhados na performance, esquecemos de acessar. e então perdemos o que importa, a luz recortando o perfil de quem se ama no mesmo fim de tarde em que um menino desvia do pai pra abraçar o vendedor de algodão-doce à saída do colégio.

alice dá aos episódios a improvável chance de significarem alguma coisa. e como se não percebesse o tamanho da dobradura que tem feito, vai crescendo pra nos lembrar que o mundo fica mais bonito sem tanto artifício.

30.6.08

índigo blur

começo de manhã a
fugir da verdade fervo

o
banho até esgarçar
a pele digo à ceg que

é asseio
o truque de
embaçar o espelho

29.6.08

festinha

para provar que literatura e pilantragem são parentes mais próximos do que o cânone admite, caio carmacho inventou o melhor que nós temos, a primeira picareta cultural de paraty.

o off-evento acontece durante a sexta edição da flip e vai reunir, entre muita gente bonita e bronzeada, nomes como lorena poema, marcello melo, chacal, marcelino freire, diogo valentino e ana palácios.

tô junto nesse barulho, que começa às 19h de sábado (5/7) no centro histórico mais badalado do litoral fluminense. idéia do que eu e a camaradagem vamos fazer eu não tenho. ou seja, vai ser um arraso.

. . . . .

tamo te esperanu.


8.6.08

polissílabos

eu vi aquele peixe e
lembrei da palavra
bar-ba-ta-na

e pensei que se fosse
dado a eles os peixes
o poder de classificar
as coisas com palavras

é certo que o mundo
não teria conhecido
o nado tipo crawl

8.5.08

só é possível filosofar em alemão

O metro quadrado da minha mesa não prima pelo critério, nem pela novidade: tem sempre um convite de exposição no papel de porta-copo, fatura vencida da Tim, tubo de Tenys Pé by Baruel canforado, cartela de Finasterida pela metade e o troco do mercado de anteontem pra arrematar a tragédia.

Os trocos se espalham feito vírus, brotam sem nem se ver. Eu mesmo, que tento dar fim a qualquer níquel antes que vire percussão no bolso, tenho cá uns três porquinhos cheios esperando solução.

Se você junta uma pilha de centavos, descobre que é dono de cinquenta dinheiros. No princípio, vai parecer muito, que tá ali amontoada toda a sobra da riqueza que já movimentou na vida. Mas quando se transforma o volume em nota, a coisa muda de figura e você nem vê onde foi parar a Viradouro em miniatura que escondia dentro da gaveta.

Foi o que eu resolvi empenhar pra assistir ao primeiro show do Rufus Wainwright no Brasil. Cláudia Abreu e Paula Toller copiaram a minha ideia, só que não desembolsaram um tostão sequer. É que artista não paga a entrada de show porque coloca o nome na lista vip, sob a promessa de sorrir pra coluna social do dia seguinte. Já eu passo pelo constrangimento de assumir a condição de estudante e abrir mão da coleção de pratinhas pra custear a meia. A volta que, maroto, dou na circunstância é me fazer de antipático: entro sisudo e saio emburrado.

O compromisso com a carranca em eventos do gênero, entretanto, foi abalado nesta quarta-feira. Não tive a honra de ser exceção. A plateia carioca, internacionalmente reconhecida por sua marra, comportou-se tal e qual um embevecido grupo de adolescentes encontrando o seu messias. E ele compareceu para destilar redenção.

Não é exatamente por confessar que cigarros e toddynhos são alguns de
seus desvios de caráter ou por não ver problema em emprestar o palco à irmã menos capaz que Rufus Wainwright é um grande artista. Ele o é por um tal acúmulo de talentos que até a plateia carioca, internacionalmente reconhecida por sua marra, se viu obrigada a descer do salto, pedir bis três vezes e entregar gritinhos de uhuuuu ontem à noite.

Desprovido de banda, cenário ou roteiro, Rufus Wainwright usa nada mais do que sua performance pra convencer o público. Canta como se o registro de barítono não tivesse limite para baixo ou para cima e engole o piano como um solista clássico para apresentar aquelas melodias que só a canção popular consegue produzir. Nas horas vagas, conversa com os mortais e faz piada como se tudo não passasse, mesmo, de brincadeira.

Mais novo, já fui tolo de lamentar não ter vivido nos anos 1920, uma época em que o mundo parece ter sido habitado por gente tão incrível que não teria me cabido outro destino senão também entrar pra história, mesmo que fosse pelo viés da mediocridade. Oito décadas depois, do fundo mudo do hemisfério sul, enquadrado na janela estética que a brasilidade me concede como graça e punição, eu me deparei com a certeza de que nem numa antologia da pequeneza me restaria espaço: a história, qualquer que seja, não se escreve abaixo do Equador.

Que esta não é uma conclusão brilhante eu sei. O que não sabia era que sairia de casa em plena quarta-feira para dar de cara com aquele mesmo embrião que deu origem a alguns artistas geniais nos primórdios do século passado.
Rufus é descendente da linhagem dos big five, os compositores que fundaram a moderna canção americana: George Gershwin, Jerome Kern, Cole Porter, Irving Berlin e Richard Rodgers. Dos cinco, pelas ironias e afetações, certamente é do autor de Anything goes que está mais perto. A diferença é que Rufus também canta. Cheio de si, se espreguiça numa dicção semicerrada e atropela o andamento de certas canções só pra persuadir a plateia de sua humanidade e poder vencer em mais um quesito.

Nunca esperei que a qualidade subdesenvolvida dos meus juízos de valor fosse se manifestar num show desprovido de banda, cenário ou roteiro. Mas ali, diante das coisas que Rufus Wainwright faz sem precisar enfeitar ou explicar muito, fui convidado a pensar nos poemas de Emily Dickinson ou nas canções de Leonard Bernstein que ele deve ter aprendido na escola como se fossem, mesmo, brincadeira. E em como por trás de seu talento e seu vigor caucasiano estão uma infância à base de sustagens de que nunca tivemos notícia, confortáveis índices de empregabilidade e toda a solidez da tradição educacional norte-americana.

A noite dessa quarta, contudo, não serviu apenas pra esclarecer de uma vez por todas que o raio das minhas expectativas está traçado pela fatalidade de ter nascido latino-americano. Rufus me ensinou a substancial diferença entre arte e release, virtuosismo e teoria, rigor e contextualização. Ao me deparar com uma expressão que dispensa qualquer perspectiva, prescrevi outro patamar de exigência para me desapegar dos meus porquinhos.

Talvez eu comece a sorrir mais em estreias quando rasgar a cartilha crítica dos Estudos Culturais, que, nos últimos quarenta anos, tem oferecido o discurso antropológico como advogado de nossa singularidade e a relativização como eterna desculpa pro real lugar que ocupamos no mundo. Rufus Wainwright nunca deve ter perdido seu tempo lendo Hegel, mas é curioso como o catálogo de suas capacidades nos faz voltar à abominável crença de que existe um modelo de evolução para o processo civilizatório.

Sejamos imperialistas.

4.3.08

para o espaço, estandarte


Patty Chang (San Francisco, 1972)
Fan Dance
2006

9.2.08

trocando de biquíni

pensando no avanço da idade do autor e dos gatos pingados que lêem este blog, resolvi mudar o layout a fim de garantir uma experiência mais... como direi... possível.

peço desculpas pelo transtorno que vinha causando com a egocêntrica certeza de que vocês também sofrem de hipermetropia e só conseguem ver o mundo como eu, assim bem lá de longe. mas, dia desses, eu mesmo fui tentar ler um texto antigo e comecei a sentir um incômodo, até finalmente sacar que a microscopia do blog podia ser mais uma das tantas explicações plausíveis pro seu fiasco.

é claro que não dou ponto sem nó e que por trás daquela miudeza toda havia um conceito. comecei a escrever neste blog quando, ainda jovem, espremer as vistas era charme e eu achava bacana pedir lentes certas pra ser desembaçado. só que, depois dos 25, a gente cansa de exigir lente pra poder privilegiar o contato. tá pra nascer idiossincrasia que valha mais que o mundo inteiro.

tenho fé em deus que um dia ainda abandono a caixa baixa. torçam por mim. na hora em que eu parar de respeitar meus compromissos com a assepsia estética pra obedecer a normas universais de linguagem, é sinal de que a vida tá me ensinando alguma coisa.

ps: este post é dedicado à nossa paulinha, que chegou quieta com seu expertise e acabou apontando as cores mais bonitas dos fogos de artifício.

18.1.08

ex-amor

ninguém precisa me explicar que blogueiro que se inspira no estilo de artur xexéo abraça a estrada do mau gosto. mas hoje me deu vontade de pagar de colunista do segundo caderno e comentar, com alta dose de ironia - veja só -, o capítulo recente de um certo folhetim.

quieto no meu canto, eu apoiava o boicote ao iptu que as associações de moradores de diferentes bairros têm organizado como forma de protesto ao agravamento do desastre urbano carioca. pela primeira vez na história, instituições como a ama-leblon, a ama-urca e a ama-pavão se unem, com o intuito de cobrar alguma providência em relação à desvalorização dos imóveis na zona sul da cidade, muito possivelmente o metro quadrado mais superfaturado do mundo abaixo do equador.

a proposta é egocentrada e, é óbvio, carece de diversos outros envolvimentos da sociedade civil para suscitar alguma reação. de toda forma, não deixa de ser um movimento minimamente relevante se comparado ao desfile de faixas exclamando ‘basta!’ que, de uns anos pra cá, engrossa o aparato cênico de amplas varandas do leme ao alto gávea.

foi em meio aos boatos sobre este calote ao tributo que viabiliza a gestão anual do município que césar maia deu outra prova do arrojo de sua conduta pública. ao tentar me informar sobre sua resposta ao levante da população, descobri que o prefeito do detonado paraíso tropical se pronunciava não através de um blog, mas conseguia inovar todo o conceito de comunicação em rede ao lançar uma ferramenta digital só sua - o ex-blog.

auge da experiência virtual, o ex-blog é um espaço que não-é. uma tribuna que só existe em potência. para ler o ex-blog, você precisa cadastrar seu e-mail e, acreditando na reputação do ex-espaço, esperar que venha alguma coisa por aí. o pior é que sempre vem. tanto que foi através dele que o fanfarrão prefeito conseguiu demonstrar, por a + b, que o boicote ao iptu, no fim das contas, acabava sendo vantajoso pro poder público. o ex-blog já nasceu destinado a tirar proveito da melhor plataforma política: o partido da situação.

césar maia pensa grande e não se rende à estratégia trivial de uma newsletter. seu antigo locutório on-line se transformou numa peça de mídia tática que foi capaz de confundir algumas das minhas mais sólidas balizas semióticas. sob a tutela de seu espírito empreendedor, o feito deve virar artifício da campanha que o reconduzirá à prefeitura em 2012. seus publicitários já devem, inclusive, estar bolando slogans que conjuguem o caráter vanguardista do rio de janeiro ao talento de um gestor vocacionado a surpreender o eleitorado. a pitada extra de absurdo vai ficar por conta da frase que brindará este reencontro como uma festa da democracia.

. . . . .

aí, mermão, eu que não quero estar aqui pra ver.

29.12.07

balada winehouse

a cabeça um colosso
sobre o corpo de varetha

braço traço de nanquim
carimbo na área vip
de céu & inferno

a vida posta na bandeja
carreira por carreira
de uma fábula privê

em tablóides íntimos
musa da dose
deusa errada
do padê

28.12.07

auto-crítica

às vezes eu fico pensando... será que a morte vai me trazer maturidade?

. . . . .


o troféu de questão filosófica do ano vai pra nossa carulina.