As novelas brasileiras ajudam a moldar ideias sobre comportamento de maneira crítica, segundo dois estudos recentes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Os estudos analisam o papel da televisão em influenciar mudanças significativas nas taxas de fertilidade e divórcio nas três últimas décadas no Brasil, onde sessenta a oitenta milhões de pessoas assistem regularmente a novelas noturnas.
BID, 29 de janeiro de 2009
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As emoções que sacudiram o país nos últimos meses me fizeram pensar que a perda do hábito de acompanhar novelas tinha sido só mais um dos equívocos da minha adolescência. Mas com “Caminho das Índias”, Glória Perez já está conseguindo me provar que o descaminho é que estava certo.
Fã ardoroso quando criança, desisti das novelas na mesma época em que deixei Januário de Oliveira narrando sozinho o Campeonato Carioca pela Bandeirantes (que ainda nem tinha se apelidado de Band). É que chega uma idade em que você abandona tudo em nome da ilustração e comete loucuras pra impor respeito por aquilo que parece ser. Se alguém pergunta o que aconteceu no capítulo de ontem, você não sabe porque estava lendo “O Mercador de Veneza”; em vez de citar Solange Couto, você passa a recitar Lautréamont; já quando o assunto é o que separa o futebol de Dodô e o de Kaká, seu prazer é comentar a distância secular entre Leibniz e Nietzsche.
Minha conduta de não-espectador foi assim formulando um arrazoado desprezo por tudo o que a televisão aberta poderia oferecer ao mundo, o que, somado ao desprezo que os canais pagos nutrem por gente como eu, acabou por resultar numa relação de mútuo desinteresse muito distante da intimidade de outros tempos. Eu pensava que não precisava da televisão brasileira para nada e ela, esperta, sempre soube que precisava menos ainda de mim. O que ninguém sabia é que uma reviravolta viria a apimentar este caso: “A Favorita”.
Pode ser que seus colegas de trabalho tenham falado da novela, mas se você não encontrou comigo recentemente ainda não sabe até onde “A Favorita” foi. Resisti o que pude, mas da abertura aos nomes dos personagens, tudo em “A Favorita” era genial. Vasculhe sua memória e encontre outra novela que tenha levado Hans Donner a criar quadrinhos noir embalados por tango eletrônico ou que tenha dado a Ary Fontoura batismo melhor que Silveirinha. A caixa de comentários é sua.
João Emanuel Carneiro é um daqueles cérebros que a gente pode passar a vida sem conhecer só pela vergonha de sintonizar a Globo no horário nobre. Autor de admirável capacidade de sugestão, ele tornou “A Favorita” um prato cheio para todo tipo de público e lecionou sobre os encargos de uma novela das oito na construção da subjetividade da massa. Experimentar depois de adulto a dependência que um bom folhetim produz no espectador me fez aceitar melhor o fato da Rede Globo ser o que é lucrando o que lucra a cada reclame do plimplim. Há de haver algum prêmio para quem conversa com o Leblon e Pernambuco, o eunuco e o garanhão sem perder o fio da meada.
Mas “A Favorita” só foi tão interessante por assumir os deveres estéticos e políticos da mais poderosa grade de entretenimento do país sem abrir mão do risco. Em torno de uma história que justapunha música sertaneja e aquilo que Jung chamaria de processo de individuação inconcluso, a novela questionou leis morais com sutileza literária e atingiu a proeza de sofisticar a discussão sobre o único assunto capaz de desavir a humanidade: a luta entre o bem e o mal.
Este mote tão antigo quanto inesgotável matizou o caráter de personagens como a cafetina covarde (Elizângela), o galã nervosinho (Cauã Reymond) ou a madame culta e idiota (Glória Menezes). Ao obedecer à premissa de que o que temos em comum é uma carne sujeita a espinhos, a novela riu da fragilidade da opinião pública e colocou nossa pressa de julgar na berlinda. Como na vida real, o bonito em “A Favorita” era que todo mundo tinha o rabo preso. A exceção era a mocinha, que, interpretada por Cláudia Raia, caía no vacilo pior de ter a língua presa.
Com uma galeria mais ou menos fixa de estereótipos, a Globo costuma querer retratar a festejada diversidade social brasileira em suas tramas. Nessa intenção, dá a todo personagem desprivilegiado a obrigação de conquistar o espectador a ponto de fazê-lo “desculpar” o aspecto embaraçoso de sua identidade. “A Favorita” teve o mérito de fugir dessa caretice e alfinetar preconceitos propondo uma relação entre rótulo e produto livre de dano ou absolvição. Não é toda novela que apresenta um negro rico e pilantra (Milton Gonçalves), um analfabeto bobo e machista (Alexandre Nero) ou um gay mimado e sexualmente em conflito (Iran Malfitano).
Parece que a maior diversão de João Emanuel Carneiro ao escrever essa narrativa foi jogar com as expectativas a todo o tempo e perspectivar valores como a consanguinidade enquanto meros efeitos de uma produção histórico-cultural. Mas, mesmo revelando o trânsito de nossas convicções, “A Favorita” conseguiu se tornar mais do que uma brincadeira subversiva por respeitar a atualidade do princípio regulador da experiência humana - a velha luta entre o bem e o mal.
E foi ao vestir o mal com a fantasia de querubim que a novela encontrou seu maior acerto. Patrícia Pillar conferiu consistência dramática a um personagem que poderia ter se tornado uma caricatura, mas virou o cerne e o charme de “A Favorita” pela combinação de complexidade psicológica, habilidade retórica e indefectíveis cachinhos loiros. A gloriosa escalada de Flora ao poder se fundamentou em sua capacidade de ver e ouvir. Espécie de observadora onisciente da história, a ex-detenta podia passar para trás qualquer adversário por saber exatamente onde a ferida de cada um doía. A autenticidade de sua estratégia, assim, estava na munição: com balas, se mata; com o discurso, se domina.
Mas como “A Favorita” tinha pavor de clichês, seu antagonismo não podia se basear no esquemático apelo da culpa e da inocência. Para demonstrar que o princípio regulador da experiência humana nos é intrínseco e continua o mesmo desde que o mundo é mundo, a novela deu ao público a oportunidade de olhar para vítimas e bandidos sob o mesmo crivo. Por esse motivo, seu enredo gravitou em torno de uma disputa de criança como aquelas que eu e você tivemos com nossos irmãos, primos ou vizinhos. E antes de abrir a plenária para julgamento, a lente da verdade perguntava: quem aqui saiu ileso das questões da infância?
Flora não saiu. E não ser a favorita frustou seus centros emocionais até resumir seu self num obstinado projeto de vingança. A raiz de sua psicopatia era, assim, tão popular quanto “Beijinho Doce”, o antigo sucesso de Cascatinha & Inhana. Ao explicar a origem de suas motivações, a narrativa ousou em defender um personagem indefensável, argumentando que Flora, tal como Lúcifer, foi apenas um anjo que se confundiu no meio do caminho.
O que cativou na maior vilã da televisão brasileira não foi a obsessão, a frieza ou a ironia: foi a plausibilidade. Flora Pereira da Silva era apaixonante por dizer tudo o que nosso lado perverso diria, encarnando o demônio que cada um de nós esconde com o know-how que só uma mulher inteligente tem. Desde que o mundo é mundo que a história de Adão alerta sobre o perigo de certas influências, mas até hoje o Ibope tá aí pra mostrar do que é feita nossa profana alegria.
9 comentários:
cara, que bacana ler isso!
bj.
cara, que bacana ler isso!
bj.
É POR ESSAS E OUTRAS QUE UMA VISITINHA NO BLOG DO XUXU EM PLENO CARNAVAL TÁ VALENDO A PENA.... POSSO ENCOMENDAR UMA RESENHA SOBRE A NOVELA AMÉRICA? ESSA QUE ERA BOA, MENINO... LEMBRAS?? MARAVILHA DE TEXTO, ORGULHO DA MÃE!
AI QUE SAUDADE DO DODI....
Lelê, dá uma olhada nesse post do Ricardo Calil, do blog Olha Só: (http://colunistas.ig.com.br/ricardocalil/2009/01/26/gloria-perez-sera-descoberta-no-futuro/).
O texto é tão genial quanto irônico e verdadeiro sobre a novela da Glória Perez.
Beso.
Lelê, dá uma olhada nesse post do Ricardo Calil, do blog Olha Só: (http://colunistas.ig.com.br/ricardocalil/2009/01/26/gloria-perez-sera-descoberta-no-futuro/).
O texto é tão genial quanto irônico e verdadeiro sobre a novela da Glória Perez.
Beso.
muito bom o texto, caro lasquera! e bem vindo de volta ao mundo das novelas. :]
eu não assisti a favorita e já faz algum tempo que não acompanho novela alguma, mas tampouco cogitaria desprezar o gênero a priori.
nos idos do tempo-foi, eu aluno da eco (!) fazia um trabalho sobre novelas (veja só) e entrevistei o aluísio trinta, professor de lá que estava lançando um livro sobre o assunto.
perguntamos a ele, eu e meus colegas, até que ponto afinal a novela "imitava a vida ou era por ela imitada"; ele se saiu com uma resposta extremamente lúcida, que ao lert teu texto me veio à lembrança e tive vontade de te relatar.
ele disse "[o importante é que] a novela jamais falseia a realidade".
ou seja, como você disse, por mais que a trama tenha furos e exija muito 'supsension of desbelief', a novela cativa o espectador por dialogar honestamente com a realidade retratada, numa mostra de abertura e humildade pouco encontrada em outras mídias.
beijos!
Então...adorei o texto- a ponto de vir aqui comentar ;-) Porém...achei a Pat Pillar na linha limítrofe da canstrice sim. Um pé lá, outro cá...e só o foi porque arriscou muito, o que, sabemos bem, é coisa rara em atores de tevê. De qq forma, fui a única a sentir algum desconforto nas cenas finais de Flora (menos, menos um pouquinho só...). Patricia Pillar levou o troféu domingo no Faustão de melhor atriz do ano hehehe e uma adolescente histérica de Malhação levou o de revelação desbancando a Larissa (Maysa). :-o vai entender...
Tb viciei em a favorita desde o primeiro capítulo e não fosse a Débora secco de retirante nordestina com sotaque meio mineiro, meio carioca teria sido perfeito...ela me fez mudar o canal diversas vezes!
Bjos insones procê!
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