eu me dei cinco minutos pra escrever. eu quis me dar nada mais que os cinco minutos que me levam pro fim do expediente pra dizer alguma coisa, sem passado, futuro ou promessa de arrependimento. eu quis me dar esse tempo e a chance de mudar de estilo, de repensar o meu barroco, de desistir da palavra melhor. entre a sinonímia e a equivalência, entre o conteúdo e a semântica, o que eu quero é dizer como quem diz assim qualquer coisa verdadeira pra alguém. eu quero encontrar esse discurso onde caibam todas as necessidades de cinco minutos, todos os sons do relógio cinza que parcela e banaliza o tempo, aquele discurso fechado que contém as sensações da hora, o papel amortecido na mesa, um só fone no ouvido e a rádio uol desligada.
eu corro contra o tempo que me dei e penso no dinheiro que se ganha e que se perde enquanto eu finjo desentender as coisas, cinco minutos pra gente morrer de susto de bala ou vício, cinco minutos pra entupir as maternidades de mais novelas. e me levo até o momento de me sentir leviano na busca por um novo estilo enquanto o mundo morre e nasce e o exército toma as ruas daqui de perto e lá de longe. mas reconhecer-se dá trabalho e é essa a hora certa de voltar a mim, pra poder enxergar a pressa dos outros com indiferença e um sorriso de meia-boca.
eu queria poder dizer alguma coisa a alguém, e dizer é mais que comunicar, é poder encostar lá no mesmo fundo de onde as coisas saem de mim. sem filtro, desvio ou esforço: apenas assim, olha aqui, é isso que eu tenho, toma isso como seu e vai embora. sai pela porta que te prende, destrói a parede, quebra a vidraça, mas sai.
e me leva junto.
14.3.06
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Um comentário:
e quem vislumbra esse teu fundo fica assim, muda.
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