3.4.06

fragmento de bula

dentre todas as minhas incoerências existe uma particularmente explosiva: a hipocondria. é ela que me faz ter surtos sobre os mais remotos presságios, apesar da rotina de pequenos atentados contra o corpo. é ela que exige a satisfação regular de três dos meus maiores prazeres: ir ao médico, esperar diagnósticos e tomar remédio. e, principalmente, é ela que me conduz quase todo mês às mega-unidades do laboratório lâmina para mais uma sessão de inevitáveis “o senhor de novo por aqui?” (as atendentes desconfiam que um rapaz tão moço e, embora franzino, aparentemente saudável só faz esse tipo de passeio para garantir o lanchinho depois do jejum de doze horas. não posso desmenti-las no todo, já que a merenda traz preciosidades como caixinhas de suco del valle em sabores sortidos, tesouro que a geladeira lá de casa não apresenta há tempos*).

alguns imbecis sustentam a tese de que o medo de morrer não passa de medo de viver e que todo hipocondríaco é uma espécie de cadáver apressado. o que se teme é exatamente o oposto, a perda de capacidade pra tudo o que a vida oferece de divertimento. medo de viver é se economizar e, caso fosse este o motor da hipocondria, tal preocupação seria mais presente tanto no meu pobre orçamento quanto no meu lasso freio às mais variadas formas de tentação.

está certo que a mania de doença reclama uma dose de abstração do cliente, a risco de se tornar um hobby patético. semana passada, por exemplo, ela me roubou a estabilidade psicológica, o centro da atenção e, conseqüentemente, a competência para qualquer atividade. as crises são os momentos de glória: do vitiligo ao lúpus, passando obviamente pelo câncer, eu já suspeitei de tudo.

os muito magros têm um motivo a mais pra esperar o pior, pois, se o simples fato de estar no mundo implica em vulnerabilidade, estar no mundo sendo magro é um desafio que não se pode calcular. não é à toa, então, que tenho a cara-de-pau de usufruir hoje de dois planos de saúde (além do sus, uma aventura disponível) e sigo me equilibrando entre sustos e espasmos, entre os mais alarmistas sites da internet, entre bulas de remédio e receitas de pajés, procurando, enfim, o elixir ideal que me salve da gripe aviária e da cirrose, os dois maiores fantasmas do momento.


*: pra quem curte o assunto, é um programa imperdível visitar a unidade arpoador do laboratório lâmina. instalações arrojadas, material totalmente descartável e atendentes muito mimosas. querendo otimizar o passeio, entre em contato comigo, que agendamos um exame em conjunto. depois, podemos caminhar até a praia, mas dando um jeito de evitar o vento frio. faremos algumas especulações apocalípticas até chegarmos, enfim, à visconde de pirajá com seu arsenal de farmácias. a avenida conta, também, com um admirável elenco médico, que vai da osteopatia à dermatologia estética, e vou adorar ter companhia em salas de espera para debater temas como as novas drogas e as formas mais amenas de sofrimento em casos extremos.

Um comentário:

Anônimo disse...

Leandro, você é o Rei!