20.4.06

alguém pode me explicar

que pagação de mico foi essa do ccbb-rio tirar a obra da márcia x da exposição "erótica"? eu juro que tentei... inventei especulações a respeito, tive a boa vontade de procurar motivos plausíveis, mas acabei voltando a uma questão, como todas as que interessam, elementar: que idéia é essa de que banco do brasil e márcia x têm alguma coisa a ver?

eu podia ser sensato. eu podia ponderar a mendigança dos artistas brasileiros e as esmolas gordas que têm pingado do cofre dourado do ccbb, do cofre arrojado do itaú cultural, ou do cofre muito chique do instituto moreira salles... mas esse é um assunto chato, ardiloso e que tem uma cara muito "debate no sérgio porto" pra figurar num blog sem leitores. um blog que não quer ser outra coisa além de conceitual.

o melhor é voltar a esse caso específico.

eu não tenho cacife (embora disponha de argumentos) pra levantar suspeitas do trabalho que o ccbb vem fazendo há quinze anos pela vida cultural do rio. mas eu tenho cara-de-pau de achar ridículo que uma instituição que abriga uma exposição em circuito nacional - e que traz em seu próprio título um indício e uma advertência - seja capaz de, subitamente, guardar uma das peças em seu caixa-forte dourado. quer dizer, passa-se por cima de qualquer eixo ou narrativa curatorial para o público carioca poder fazer um percurso de paz na mesma mostra que estreou em são paulo e que, em dez dias, expira sua itinerância por aqui.

mas as questões envolvidas são muito maiores do que o mero deslize com a sequência de obras em exposição. o objeto da discórdia, "desenhando em terços", é um representante bastante digno da produção de márcia x: dois pirús inscritos com terços sobre um fundo de cor negra. uma obra desconcertante (como o resto da produção dessa artista genial), que põe certos estatutos em xeque e que, de uma forma simples e contundente, consegue fazer aquilo que o ccbb não tolera: questionar.

não é preciso fazer muito esforço crítico para notar a precisão cirúrgica com que márcia x, num único gesto, zomba das noções de sagrado e profano, infantiliza o mito do pau e discute o poder dos símbolos. ousadias que ficaram muito mais evidentes na exposição individual que recebeu há poucos meses atrás no paço imperial, um espaço vizinho ao ccbb somente na geografia.

"desenhando em terços" foi alvo de protestos inflamados de um certo empresário carlos dias filho, que topou com a obra enquanto fazia hora para ir à missa em homenagem a dom eusébio scheid, ali mesmo, na candelária. a personalidade não apenas reclamou, como registrou queixa-crime na polícia. segundo ele, "isso não é arte". o ccbb concordou. e, sob pressão da igreja católica, a obra saiu de cartaz nessa quarta-feira.

a assessoria de imprensa profere o discurso polido esperado, a mis-en-scéne pra apagar o incêndio. e fica tudo muito bem, como se esse ato não representasse qualquer desrespeito ao curador, à artista e, muito principalmente, à inteligência coletiva.

não posso negar a capacidade de choque de "desenhando em terços" para o espectador desavisado. é certo que o quadro cria embaraços em diversos níveis, além dos óbvios. mas não é engraçado pensar que obras até mais "agressivas" da mesma artista tenham estado em cartaz por um bom tempo no paço imperial, sem que qualquer incidente de maiores proporções se registrasse?

isso se torna um pouco mais sério quando se lembra que o ccbb tornou-se um modelo de excelência na promoção da cultura não apenas para o rio de janeiro, mas pro restante do país. uma atitude institucional como essa deixa muito claro qual é o compromisso primeiro da entidade, e que tipo de escolha se faz numa situação que coloca de um lado uma artista com uma produção desafiadora e, do outro, os interesses subterrâneos que envolvem a política e o dinheiro. frente à queixa de um empresário e ao poder da igreja católica, márcia x nunca vai ser outra coisa além de uma louca.

que afinidade real pode existir entre as instituições financeiras (e seus correlatos centros culturais) e a arte (ao menos aquela que ainda tem a função de provocar)? no meu modesto parecer, são duas coisas fincadas sobre territórios diametralmente opostos: o da ordem e o da contestação.

não há nada mais subdesenvolvido que um centro cultural que confirme a falta de humor e a pouca acidez que regem o senso comum. enquanto os conselhos consultivos dos conglomerados financeiros decidem o que a gente vai ver e o que a gente não vai ver, continuamos acreditando que fazer cultura no brasil é organizar fila indiana pra se encantar com claude monet...


ps.: esse meu jornalismo de denúncia não convence ninguém. mas eu só queria dizer: viva tadeu chiarelli. e que márcia x derrame o leite mau na cara dos caretas.

2 comentários:

Anônimo disse...

só tenho uma coisa a dizer...

eKcelente!

Anônimo disse...

Eugénia diria: és um orgulho, pá!

Eu subscrevo Eugénia.

E Marcus não vai se conformar com o fato do artigo não ter sido entitulado: Márcia X CCBB.

De facto, o mundo não é chato.