26.4.06

revendo em terços

depois da resposta imediata do meio artístico sobre o “caso márcia x” - cujo maior happening foi a manifestação levemente alegórica promovida no foyer do ccbb na última quinta-feira, com um tapete de cartolinas brancas emendando pomposas genitálias e inscrições do tipo “viva a liberdade” - comecei a achar meu texto apressado e, como de hábito, desnecessário.

contudo, ao ler a “nota à imprensa” divulgada pelo nobilíssimo gilberto gil no site oficial do ministério da cultura, percebo na defesa que corre na praça um ar de inocência: em meu texto, tomei certos cuidados para não usar o termo censura (exatamente a palavra mais dita na última semana), por não acreditar que um centro cultural vinculado a um grande banco seja mesmo imparcial na escolha de sua programação. falar que uma exposição de grande porte deve ser resultado exclusivo do escrutínio do curador é querer tapar o sol com a peneira num território fértil em questões mais sérias. o que gil, os artistas que se manifestaram contra o ccbb e o restante da classe parecem desconsiderar em suas falas é que a política de seleção é, sim e sempre, orientada sob um ethos institucional, independentemente do fato de que os recursos provenientes para sua realização sejam meros repasses de renúncia fiscal. impor o selo de “censura” a uma ou outra obra é apenas a conseqüência extrema de um absurdo muito anterior: a cultura brasileira sobrevive de políticas privadas para verbas eminentemente públicas.

o que mais me espantou no “caso márcia x” foi a impertinência de se retirar uma obra de uma exposição já em circuito, com passagem bem-sucedida por são paulo e de malas prontas para temporada em brasília. o que indigna é a covardia do ccbb não resistir a uma promessa de ataque e, sobretudo, a falta de capacidade de prever que os seiscentos correntistas que se queixaram de “desenhando em terços” (como alega o banco) são simbolicamente muito pouco perto da mancha que se estira sobre o nome da instituição.

a atitude do ccbb não foi de bom tom. e, como se sabe, existem poucas coisas mais graves do que não ser de bom tom.

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