8.1.07

sexygenário

quando todas as evidências me diziam que hoje eu não fugiria do ranço de desgosto e banalidade de toda segunda-feira, cai a bomba: david robert haywood-jones - mais conhecido como camaleão do rock - está completando 60 anos de idade e ninguém me chamou pra parada cívica.

hoje é um dia especial pra comunidade cool, hype, yuppie, glam, fashion, lad insane. é um dia especial pra quem aprendeu com ele que o que dá onda é ser über. como se sabe, david bowie é o resumo poético das melhores façanhas de comportamento surgidas na música dos últimos 40 anos. ele explicou, na pluma múltipla de seus heróis, a inconstância do espetáculo e a cortina de sexo, consumo e pó que os anos 70 pensavam ser um mero refluxo de valores. ele mostrou que a força do rock nascia de uma adolescência tipicamente masculina, ainda quando fazia da ambigüidade um desafio e um desfrute. ele ampliou os limites da canção pop ao lhe dar ambições de grande arte, povoando suas obras de figuras, enredos, paetês, mitologia, charadas, gomalina e uma ironia de que nem mesmo ele parecia ter noção.

de uns tempos pra cá, o camaleão tem optado por uma vida mais regrada: sua atuação na psicologia e no diretório nacional do pt não tem encorajado a mesma euforia crítica que seu legado artístico. ao se afastar dos palcos para batalhar politicamente pela união civil entre pessoas do mesmo sexo, sua voz ficou sem viço, o botox afrouxou, a proposta perdeu o foco e o gume.

mas hoje é dia de festa. e não me interessa discutir seu papel frente à prefeitura de são paulo, o inesperado rompimento de um casamento sólido ou o vexame da carreira musical de seus filhos. eu quero mais é festejar o requinte deste bastião da condição pós-moderna: à esquiva de toda chapinha e toda balayage, de todo punk e todo grunge, de todo estoque e todo ibope, david bowie continua a ser o melhor produto de si mesmo.

2 comentários:

Anônimo disse...

genial, como sempre e recomendo, burrp.

Robertson dos teclados! disse...

é... chega uma hora na vida da gente em que sentimos o efeito devastador que o só um bom laquê pode ter.