24.4.07

pt saudações #2

hoje foi um daqueles dias em que o brasil, esse país que tem o saudável vício de parar, parou mais uma vez. um simples comunicado online roubou o chão de toda uma nação de barbudos sensíveis, patricinhas descoladas e proprietários de brechós. a banda los hermanos, o maior fenômeno do pop-rock brasileiro nos últimos dez anos, avisou que está saindo de campo sem previsão de volta, deixando órfã uma legião de amarantes, camelos, buarques-mirins.

é uma notícia de peso para todos os cadernos do jornal, do obituário ao suplemento de moda, mas especialmente pra seção de economia. após os dois shows de despedida agendados para maio na fundição progresso, tende a ficar ainda mais volumoso o índice de produtos derivados de sua escola de comportamento. dos discos de samba-jazz sessentistas ao universo de tonalidades de cáqui que infestam os figurinos de nossas cidades, todo um mercado se estabeleceu em torno da banda que nasceu pra ensinar à geração 2000 o que vinha a ser idiossincrasia low profile.

mas pra quem se atordoou com o comunicado, resta sempre uma esperança: os los hermanos são categóricos em afirmar que o recesso não é motivado por qualquer desentendimento. como todo mundo sabe, os los hermanos não brigam com ninguém, muito menos entre si, e, se exaltam a voz fora do palco, é só um gesto calculado pra mostrar o quanto são mais refinados que eu, você e todos os heróis que o rock’n’roll consagrou.

camelo, amarante, medina e barba são dignos representantes de um tipo de arrogância que só o rio de janeiro sabe produzir, uma marra travestida de doçura capaz de engabelar clientes de diversos naipes. este é, sem dúvida, o componente mais indigesto de seu legado artístico: o alto grau de ternura que acabam fazendo transbordar em seu público, que peca pela falta de pecado, pelo enciclopédico conhecimento de curtas-metragens e vinis históricos e, principalmente, pela meiguice incorporada à conduta.

mais do que um punhado de canções acima da média, o que o quarteto carioca nos deixa é a certeza de que meninos bem-nascidos, bem-criados e bem-resolvidos não podem presentear pais e mães cautelosos com qualquer desonra. é o tipo de lição que começa a se aprender em casa, a puc se esforça em aprimorar, e só pode ser plenamente amadurecida no terreno encantado do baixo gávea.

a nota sobre o descanso da banda garante que a amizade e o contato entre os quatro serão mantidos pelo sagrado jogo de truco semanal. e eu, que não passo de um zé-ninguém, fico me perguntando onde foi parar a polêmica, este aditivo fundamental para o repertório de assuntos coletivos, este elemento que desvia a atividade artística da rota ordinária do bom senso e que abastece de sentido as discussões de botequim, as disputas ideológicas entre os casais e os mais exaltados almoços de domingo.

é uma nítida preferência pelo bemol que não faz parte da minha furibunda concepção. um empenho pelo tom menor de cada modo que põe arte e vida num pacote soft-bege e numa zona confortável, em paz com a própria consciência. para a ajuizada, inteligente e venturosa platéia que transforma seus shows dissonantes em doutrina uníssona, camisa pólo, xadrez e listras são mais do que meras afetações estéticas. viraram filosofia de vida.

6 comentários:

Rafael R. V. Silva. disse...

...hahaha...
Muito bom!!!
Abração.

Robertson dos teclados! disse...

é por isso q eu não gosto de artistas! gosto acidentalmente de algumas pessoas que por alguma pegadinha do destino e falta de vergonha na cara dizem produzir arte!
eu gosto mesmo é da geração rolling stones!

Anônimo disse...

pobres barbados...

superid disse...

nao acho seu contato, pode me escrever? superid@gmail.com

beijo na caru por mim.

obrigado.

Anônimo disse...

Fantástico.

Anônimo disse...

bota ele pra fora que eu vou chupar, fodão.