é nisto que reside a excepcional novidade de nossa cultura ética: pela primeira vez, eis uma sociedade que, longe de exaltar os mandamentos superiores, os eufemiza e os desacredita, desvaloriza o ideal de abnegação estimulando sistematicamente os desejos imediatos, paixão do ego, a felicidade intimista e materialista. as nossas sociedades liquidaram todos os valores sacrificiais, quer sejam determinados pela outra vida ou por finalidades profanas.
gilles lipovetsky em "o crespúsculo do dever" . paris, 1992 .
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"proibido proibir", segundo longa-metragem de jorge durán, se não chega a ser um filme perfeito, consegue o que toda boa arte deveria querer: colocar o espectador contra a parede de seu berço esplêndido, localizá-lo na engrenagem da desgraça coletiva e oferecer em troca nem constrangimento nem redenção, mas a descoberta toda inédita de que, para o bem e para o mal, está vivo.
no título, o sample do grito militante da juventude de 68 pode parecer gratuito, mas esconde um grau de ironia. a sentença-paradoxo "é proibido proibir" não quer dizer o mesmo que a meta-interdição "proibido proibir". nos quarenta anos que nos separam daquele maio, operou-se a transição das leis do imperativo para a substantivação de um verbo, sua coisificação, sua gradativa e fatal implantação na lista das inutilidades.
como queria ivan karamazov, a morte de deus nos trouxe de bandeja a morte de todos os vetos. proibir, portanto, não é mais um gesto factível, tornou-se palavra de ordem meio oca, resíduo de costume que só professa quem é bento. pense bem: "proibido estacionar", "proibido fumar", "proibido celular"... é preciso muita ingenuidade para escorregar na pretensão de proibir.
deve ser por isso que quando se fala "proibido proibir", no meio da narrativa, como reação instintiva a um pito, nela se perceba um humor distante do protesto, mas bem próximo do fastio de quem explica uma obviedade. a glória de ser contemporâneo é saber que qualquer chicote é muito pouco couro pra quem lustra o traseiro no livre arbítrio.
jorge durán fez um filme sobre paulo, letícia e leon, que sintetizam em suas falas e tomadas de atitude vários sintomas do charme e do desencanto de uma geração. no entanto, abriu mão da vaidade de fazer de seu filme um tratado, abraçando a singularidade de seus personagens ao invés de torná-los cartas marcadas de um jogo de retórica.
paulo, letícia e leon parecem, assim, muito reais em sua humanidade, que tem como pano de fundo o laboratório de ideais e desolações que só poderiam encontrar na universidade pública. e, talvez, só quem conhece aquele cenário (o campus do fundão da ufrj) possa se valer da lembrança malcheirosa da baía de guanabara, que se soma à mise en scène da vida universitária como um alerta de que o solo onde se semeiam nossos sonhos está podre.
esta contaminação de sujeitos em estruturas – e vice-versa – poderia ser ampliada e facilmente se transformar num discurso sociologizante sobre o comportamento dos universitários brasileiros. ou seguir a trilha ainda mais fácil de uma abordagem romanesca sobre os extravios de um triângulo amoroso. mas o que é bonito em “proibido proibir” é sua lealdade à história que quer contar, o que leva o filme, por outro lado, a evitar o excesso de manobras estetizantes, esta mania sempre aplaudida e que tem em “o céu de suely” um insosso exemplo recente.
a receita de durán, contudo, não é simples. a universidade, que já significou a menor distância para um certo tipo de crescimento humano, surge no filme como um degradado espaço de formação. o rio de janeiro, habitualmente visto como a matriz do desbunde ou do horror, apresenta sua existência periférica, numa fotografia suburbana, suada e aflita. e os jovens, detratores autênticos da ordem natural das coisas, são agora forçados a um trajeto prematuro da supraconsciência histórica à certeza de que o herói pós-moderno, antes de salvar o mundo, garante a sobrevida cosmética da própria pele.
ao bater as botas, deus encurtou sensivelmente o raio do círculo de referências cujo centro regulador é o nosso umbigo. com isso, a realidade social virou uma marcha anônima de pequenas circunferências, que fazem da vontade própria seu mais elaborado princípio e do fone de ouvido a melhor saída pra abafar explosões vizinhas.
a grandeza de "proibido proibir" está no encontro casual de três dessas esferas, que, atrapalhadas em seu ritmo avulso, acabam elegendo a micropolítica de seus sentimentos como um paliativo para a grande descoberta da vida: a de que o buraco é sempre mais embaixo.
15.5.07
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Um comentário:
caramba, esse cara me persegue.
não tu, lascado, que no máximo eu é que te persigo. ou nos persigo. nos perseguimos. nos persignamos. vai saber.
mas o gilles lipovetsky.
faz um tempo eu tava na casa duma amiga, lá em sampa, uma amiga estilista e professora de design. aí comecei a folhear um livro, achei interessante, anotei: era do gilles lipovetsky.
há bem menos tempo, dei com um texto dele na net, juntei dois mais dois e lembrei do livro que tinha anotado. não lembrava o nome do autor, fui conferir - era mesmo o mesmo: gilles lipovetsky.
eis que agora, após ter postado (sonoro isso) no meu blog, resolvi fazer a ronda de todos os blogs que linkei ao meu - e com quem me deparo aqui no seu fogoso-artificioso? gilles lipovetsky.
é tantas vezes o nome dele, que evidentemente fiz um ctrl+c logo de saída.
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seu comentário me deixou com vontade de ver o filme, sim; mas achei bonito com ou sem filme a sua umbilical formulação ali no penúltimo parágrafo.
vou ctrl+c também sim, viu?
- vai que leandro vira e mexe aparece como um mulato lipovetsky por aí??
beijos.
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