11.10.08

méditerranée

Minhas hemácias são menores que o normal. Há anos que o laudo da Microcitose me acompanha sem que a medicina forneça explicações sólidas sobre como meus atos cotidianos estão implicados neste quadro. A anemia não aparece há alguns hemogramas, mas nunca consegui esboçar reação semelhante no volume globular médio, que permanece estacionado numa faixa entre 10 a 15% abaixo do conforto da regularidade.

A gente aprende quando criança que os glóbulos vermelhos estão envolvidos num processo tão importante quanto todos os outros milhares de processos do corpo humano: o da oxigenação dos tecidos. Mas, para além disso, sempre me chamou a atenção o fato deles serem o específico tipo de célula que existe em maior quantidade no sangue de uma pessoa. Abraçando o chavão, seja lá o que isso queira dizer, é certo que isso deve dizer alguma coisa.

Hoje eu acordei cafona como uma metáfora e, deixando que os exames de sangue fizessem morada na minha fantasia da vida e da morte, resolvi pensar que a Microcitose – o diagnóstico de que meu volume globular médio é menor que o normal – fundamentava os padrões de comportamento obcecados pelo minimalismo, as obrigações subjetivas com a discrição e a falta de fôlego para as mais banais atividades pelos quais tenho historicamente culpabilizado minha psique. Talvez eu esteja sucumbindo ao causalismo somático do discurso científico contemporâneo – aquele mesmo que assegura que somos o simplório produto do que nossos genes, enzimas e hormônios querem que sejamos.

Uma doutora surpreendida com a perícia com que descrevi sintomas mais corriqueiramente narrados em seu consultório me perguntou ontem se eu era médico. Respondi que, apesar de nunca ter cogitado a carreira, o Google tem prestado socorro na sofisticação do meu vocabulário clínico. Foi ele, mais uma vez, que esclareceu o que vinha a ser a Talassemia, um termo com o qual esta mesma doutora também conseguiu me surpreender, associando-o, de forma inédita, a uma possível etiologia das minhas hemácias pequenas.

A Talassemia é uma doença que pode acometer a produção de hemoglobinas, resultando na alteração do tamanho dos glóbulos vermelhos. Em suas formas brandas, não chega a ser uma patologia digna de nota, mas é óbvio que mobilizou minha consideração e alguns minutos de estudo antes mesmo que os exames capazes de comprovar tal predisposição fossem realizados. O mal não estava me parecendo particularmente interessante, até descobrir que ele também pode ser conhecido como Anemia do Mediterrâneo.

Peço perdão aos talassêmicos e aos que já sofreram qualquer dano por conta desta enfermidade, mas, para um sujeito com as minhas origens, a minha cor de pele e o meu saldo bancário, foi impossível evitar a festa ao articular esta remota perspectiva diagnóstica a um prestígio genético que jamais sonhei ter. A doença deriva de uma deformidade na carga hereditária de indivíduos naturais da região do Mediterrâneo, o mar que banha igualmente a Europa, a África e a Ásia, mas que, por motivos de força maior, entrou mesmo no imaginário ocidental como a reserva geográfica do glamour. De Barcelona à Côte D’Azur, cada mergulho no Mediterrâneo não pode ser outra coisa senão um flash.

O pedido do exame está dentro da mochila até agora. Já são mais de 24 horas transcorridas entre a consulta médica e a visita ao laboratório, denunciando uma negligência que não costuma acontecer quando estou sob o jugo de qualquer presságio. Mas cadê, mermão, cadê a coragem de ir lá e ver desconstruído o meu castelo de baralho, a minha primeira e única chance de idealizar uma árvore genealógica recheada de heroísmos mouros ou aromas da Provence?

Pense comigo: não há risco para um anêmico crônico que a ingestão reforçada de ferro e ácido fólico não possa cobrir. Mas o benefício de continuar nesta ignorância e ter o direito de especular um passado glorioso para minhas raízes sanguíneas não há Mastercard que pague.

7 comentários:

Rafael R. V. Silva. disse...

...hahahahahahaha...
Adorei!!!

ana k. disse...

ei, leandro!
lia este blog pelo link do blog do dimitri e não sabia que era seu.
agora que descobri o dono, eu digo: gosto muito daqui.
beijos,
Ana.

ana k. disse...

ó, te linkei lá no blog, viu?
beijos,

Anônimo disse...

Genial!

Anônimo disse...

Muito bom o texto. Foi uma indicação do Caio que eu adorei. Voltarei mais vezes. Abraço

Pedro. disse...

sou mais um que gostou!

hemácias menores, ,lisadas, falciformes, as vezes o corpo insiste em ser tão diferente dos outros, que até parece gente crescida.

Flávia C. disse...

"hoje eu acordei cafona como uma metáfora..."

Isso acontece sempre comigo.