5.11.08

negro é lindo

I can’t say if those hand-pressed looking shirts are made of the finest Egyptian cotton or not, but the point is they suggest it. The simplicity of Obama’s lean, monochrome suits and solid blue ties makes every other pol appear porky and plebeian. It’s not just the clothes, of course. It’s the wearer - his carriage, the loping grace of his walk to the stage. What's interesting is the androgynous quality of the Obama appeal. He’s almost like an avatar sent out dressed as himself to turn red states into blue. Obama is too contained to have the kind of sex appeal we are used to in public men whose drive to seduce sometimes becomes literal when it comes to the opposite sex.

Tina Brown . The Daily Beast . 28 de outubro de 2008 .

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Ninguém ainda conseguiu entender se Barack Obama está a serviço de Deus ou do diabo, mas, seja ele arauto de quem for, a boa nova já está entre nós. A corrida pela Casa Branca tem mais impacto no meu - e no seu - cotidiano do que qualquer eleição nacional. Mesmo assim, pouco interessava quem efetivamente viria a se sagrar o novo dono do mundo. No colégio eleitoral da minha - e da sua - intimidade, o dono do mundo já era ele.

Barack Obama é a mais charmosa celebridade produzida pelo star system nos últimos anos. Seu calor mestiço, seu sorriso acachapante, suas mãos e pernas imensas tornam qualquer astro de primeira grandeza em vedete decadente. George Clooney, Gisele Bündchen, Marilyn Manson: os medalhões do mainstream parecem fúteis, antinaturais ou melancolicamente dispensáveis. A gente já tem coisa melhor pra admirar.

Desde o anúncio oficial de sua candidatura que Obama, tal como a Marquesa de Mertuil, se transformou num virtuose do autocontrole. Afrontaram seu prumo com toda sorte de investida, mas nem Wall Street nem a Otan foram o bastante para balançar o alicerce tibetano. Só na última segunda-feira, ao saber da morte da avó, ele se deixou flagrar num momento de vulnerabilidade. Obama chorou e então tudo ficou mais claro: o fato político e simbólico do ano não é a ascensão de um presidente negro. É a ascensão de um presidente lindo.

Essa campanha, por outro lado, viu John Mccain fazer o papel de cachorro morto, um tipo bom de se chutar. Ao nomeá-lo seu representante na disputa presidencial, os republicanos deram a Obama a oportunidade de se tornar melhor do que já é por natureza. Assim, a vitória do democrata se deve menos à quebra dos Lehman Brothers e ao sucessivo dominó econômico do que ao arrojo do seu traçado mandibular. Um país fissurado tanto pela eficiência como pelas cirurgias plásticas não elegeria um veterano de guerra satisfeito com liftings tão toscos.

A bem da verdade, Mccain se sobressaiu ao menos em um quesito: esposa. Se Obama conquistou o eleitorado por manter teso o arco da promessa, Cindy Mccain representou, com assustador requinte, a banda podre do sonho americano. Sua figura, privada de qualquer referência à carne e ao osso, foi um contraponto à miséria discursiva do marido, deixando entrever alguém capaz do escândalo biográfico da década passada, quando desviou lotes de analgésicos da Ong que administrava para animar sua própria chapação. Deusa, louca, feiticeira. Ela é demais.

Mas o páreo estava ganho desde a partida e foi outra mulher quem começou a transformar Obama em presidente. No discurso da convenção, em fins de agosto, Hillary Clinton pôs no mesmo mulato que tentara desqualificar durante as primárias uma fé que a gente só coloca em quem confia de verdade. E tendo Hillary Clinton passado por tudo o que já passou na vida, não caberia a nós julgar o novo objeto de suas convicções. No fim das contas, a gente percebeu que, ainda que ninguém entenda qual perfil político seu histórico de votação no senado projeta, não importa se Barack Obama está a serviço de Deus ou do diabo. A sugestão de sua nobreza vale a pena por si só.

Em sua análise sobre o borogodó cool do então candidato, Tina Brown acerta em quase tudo, menos em pressupor androginia no appeal de Barack Obama. A singularidade do novo presidente está em saber resolver, como passe de mágica, uma implausível equação que iguala virilidade e elegância. Sua ginga aparece, no arquivo recente da luta épica entre o apolíneo e o dionisíaco, como dado só comparável à cabeçada de Zinedine Zidane na final da Copa de 2006. Só que o comedimento majestoso de Obama, ao contrário da explosão chique de Zizou, propõe que toda força é muito mais forte quanto mais subordinada ao domínio insinua estar.

Hoje não é um dia histórico porque um preto chegou ao topo do império, mas porque chegou ao topo do império um homem que parece encarnar todas as virtudes cabíveis nos melhores anúncios de perfume. Jovem, forte, autêntico, decidido, moderno, inteligente, cosmopolita, intrigante. Durante os últimos meses, Barack Obama ofereceu a certeza irrefutável de que é o homem que faltou na minha e na sua casa. Ao que tudo indica, alguns milhões de lares americanos sentiram o mesmo.

8 comentários:

Unknown disse...

hahahaha...
Excelente!
De tudo que li sobre a vitória do Obama, nada conseguiu ser melhor do que o seu post.
O final então é muito bom! Se bobear Obama é homem de curar até sapatão!

Pedro. disse...

votaria em Obama sim, apesar de adorar a perspectiva de uma primeira dama americana que desvia analgésicos. brincadeiras à parte, adoro aqui!

Pedro. disse...

http://www.youtube.com/watch?v=XLFVH6jAV2w

essa era a musica do post passado.

palácios disse...

inteligente, centralizador... adorado.
você. e o obama também.

ana k. disse...

tenho que concordar que foi a coisa mais inteligente sobre o obama que eu li.
achei que já tinha comentado. mostrei o post para o kiko e ficamos rindo um tempão.
beijos, menino.

Eduardo Miranda disse...

ooh la la! Repito: Ô-bama, Senhor! Ô-bama, Senhor! Ô-bama que o Bush se cagô - ô - ô!

Flávia C. disse...

Adoro este texto.

Anônimo disse...

Adorei. Brilhante, com ritmo, eletrizante. Gostei muito, Leandro.
Bjs
Marcia