mal fora iniciada a viagem, um deus me segredou que eu não iria só.
david mourão-ferreira em "inscrição sobre as ondas" . lisboa, 1988 .
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minha conduta nunca ofereceu muitos motivos para eu me orgulhar de mim mesmo, mas, dentro do minguado elenco dos meus méritos, existe um do qual eu publicamente me envaideço: tenho talento pra escolher o que me rodeia.
é verdade, também, que deus tem sido camarada nesse sentido. pra que eu não tenha de mim uma apreciação dolorosamente verdadeira, ele vai me cercando de pequenos trunfos e, assim, fornece uma indenização homeopática para as minhas próprias limitações. o que tenho de mais valioso na vida está do lado de fora, mas, positivamente, em volta de mim.
dentre todas as nobres criaturas que me rodeiam, existe uma que me rodeia muito mais. isso não se deve apenas a uma coincidência geográfica, mas à descoberta mútua e precoce de que uma pessoa é tanto mais autêntica quanto mais se parece com aquilo que sonhou para si. juntos, fizemos da autenticidade uma prioridade elementar, e o que sonhamos para nós mesmos é exatamente aquilo que tratamos de construir.
isso a que demos o nome de sonho é uma casa muito engraçada, onde não tem teto, onde não tem nada. é uma casa imaginária, possivelmente uma casa no fim do mundo, uma casa que abraça a gente e explica tudo.
a menina que mora comigo nessa casa é sua estrutura e alegria. ela é onde o mundo se resolve, onde a luta se pacifica. seu faro é o meu roteiro e eu acompanho sua vanguarda com uma marcha barroca e vacilante. mas ela me ama, eu sei, e me empurra pra frente porque o futuro que ela representa só faz sentido porque é feito de inclusões.
é um privilégio notar que a consciência plena da condição intestinal um do outro já deixou de ser o maior testemunho da nossa intimidade. nessa casa que construímos para nós, criamos aquele tipo de ligação peculiar dos umbigos e, hoje, sua piada é a minha, minha dor é a dela, se ela dança, eu danço.
mesmo quando a vida não lhe é justa, ela sabe fazer do riso uma saída elegante e generosa. ela sabe que qualquer tempestade é muito pouca água pra quem se enraíza a fundo, pra quem sabe fertilizar seus solos e só se nutrir do que vale a pena.
não são muitas as pessoas que vieram ao mundo pra ensinar o conjunto de coordenadas que se cruzam nesse sentimento que chamamos de amor. a carulina fez disso sua profissão. e eu a amo como um aprendiz.
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tamo junto, neném.
1.2.07
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3 comentários:
por isso tudo eu vos amo tanto tb!
regeninha
Ah o poder das declarações de amor...Faz bem a todos.
Que bom que há Caru, que bom que há Lelê, que bom falarmos todos o mesmo idioma...
Adoro esse desfrute !!!
Três vivas ao amor...
Lindo, Li!
Quase choro.
Mas agora ficou muito mais difícil escrever qualquer coisa pra Carulina...
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