Com alguns minutos de filme já fica claro que Meirelles escolheu, dentre os possíveis, o caminho mais óbvio para expressar nas suas imagens o tal estado de cegueira por excesso de luz. É como se o mundo estivesse dentro de uma lâmpada em curto, que dilata ao limite do inconveniente os micro-segundos que antecedem seu estouro. Tudo converge para a sensação, reforçada pela trilha sonora (show de horrores cujo ápice é a versão em xilofone para uma famosa suíte de Bach), de que esse material, embora destinado a refletir o mundo em sua totalidade e incluir o homem na engrenagem do tempo, não resiste ao toque. Meirelles entra para o time dos cineastas que fazem o cinema mais verdadeiramente publicitário das últimas décadas. Cortados os fios que ligavam o mundo à câmera, resta brincar de visionário e – sua real empresa – esbaldar-se com o colapso social e com o apodrecimento moral que as cenas acusam sem a menor condição de superar.
Luiz Carlos Oliveira Júnior . Contracampo, edição 92 .
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Há coisa de um ano e meio, ponderei aqui que toda boa arte deveria querer colocar o espectador contra a parede de seu berço esplêndido, localizá-lo na engrenagem da desgraça coletiva e oferecer em troca nem constrangimento nem redenção, mas a descoberta toda inédita de que, para o bem e para o mal, está vivo. Àquela altura, a idéia era fazer uma defesa das virtudes de “Proibido proibir”, longa de Jorge Durán que, embora bem-recebido pelo público e pelo bonequinho do jornal, fora qualificado como um filme vulgar por parte influente das pessoas que conheço - aquelas que entendem mesmo de cinema. O acabamento das imagens e a edição final da obra, diziam, flertavam com o mau gosto.
De todas as artes, a sétima é a única realmente capaz de formar ou divorciar casais, construir ou romper amizades antigas, provocar afetos ou desavenças no hype society. É que, para os círculos mais intelectualizados do Rio de Janeiro – ou de qualquer grande centro urbano –, o cinema não é só uma poderosa forma de arte. É uma religião com os mesmos deuses, apóstolos, profetas, juízos e pecados que regulam a vida dos iletrados. A diferença é que os iletrados se reúnem em culto aos domingos e os intelectuais, durante a semana. Cinéfilo que se preza foge de sessão lotada como o diabo da cruz.
A palavra sagrada da cinefilia brasileira atende pelo nome de Contracampo, publicação que tem servido como um interessante celeiro de ensaios e apontamentos sobre este universo artístico. Seu compromisso principal é pensar o cinema, a linguagem que se tornou o próprio pensamento do século XX. Assim, a Contracampo se consolidou nos últimos anos como uma espécie de Cahiers du Cinéma virtual e tupiniquim, figurando no eldorado de nove entre dez aspirantes a críticos de cinema do país.
Eu já tive o prazer de freqüentar aulas de Luiz Carlos Oliveira Júnior e de receber sua presença - deveras ilustre - na minha casa algumas vezes. Por isso mesmo sua resenha de “Ensaio sobre a cegueira” entalou na garganta. Não apenas porque, apesar dos defeitos, eu veja predicados no filme de Fernando Meirelles, mas porque não posso engolir que um sujeito tão inteligente e querido como Luiz Carlos Oliveira Júnior cometa o erro de analisá-lo em evidente cegueira pelo excesso de luz própria.
Com algumas linhas de crítica já fica claro que ele escolheu, dentre os possíveis, o caminho mais óbvio para expressar a decepção com o quinto longa de Fernando Meirelles. A vaidade de cada uma das frases fez do seu texto uma brincadeira de oratória, excitação estética no vazio que não resiste ao toque, tal qual uma bolha de sabão. Só que a obviedade foi mesmo uma escolha para Fernando Meirelles: valorizando uma mensagem mais importante que qualquer dramaturgia, a parábola de José Saramago foi transformada num produto de entretenimento comercialmente viável, visto por milhões de pessoas ao redor do mundo e assimilado por bom número delas. As alegorias do texto de Luiz Carlos Oliveira Júnior, por sua vez, sobrepuseram a afetação à essência, alcançando uma pequena audiência que se legitima em aplausos mútuos.
Sou ignorante em cinema, mas tenho uma pequena noção da missão social do exercício crítico. E, embora sem credenciais para duvidar que o diretor de “Cidade de Deus”, com seu estilo narrativo e manobras de montagem, faz filmes publicitários, eu posso questionar que grande erro haveria de ter nisso. O cinema de Fernando Meirelles é verdadeiramente publicitário; a crítica de Luiz Carlos Oliveira Júnior é mentirosamente purista.
“Ensaio sobre a cegueira” tem mesmo seqüências infelizes e recorre a diferentes clichês (dentre eles, os canhestros trechos com a narração em off de Danny Glover). Mas foi por saber que a mensagem de seu cinema era maior que concessões como esta que Meirelles produziu um filme capaz de interessar aos mercados, levar minha família ao cinema do shopping e despertar na tia Mara, fã de Alcione e Paulo Coelho, olhos de susto – “menino, olha só como a gente é!”.
Não se trata de celebrar filmes feitos de boas intenções, nem tampouco de negar à crítica o delicioso privilégio do esculacho. É preciso alargar o foco para refletir na razão que faz da Publicidade uma linguagem tão possante hoje, enquanto o “Cinema de autor” agoniza em sua piada cada vez mais interna. Antes de culpar as ciladas do capitalismo ou a mediocridade intelectual de meia humanidade, a gente pode, inclusive, pedir ajuda aos universitários.
O imediato prestígio internacional de um cineasta brasileiro como Fernando Meirelles indica outras coisas para além de uma mera prostituição da “grande arte”. Enquanto a crítica se perde na nostalgia de um cinema que nunca existiu ou existirá, vai se isolando nesse papel ressentido e deslumbrado, criança autista com uma pistola de plástico às mãos. A resenha de “Ensaio sobre a cegueira” exemplifica uma crítica que, desligada de tudo o que não cabe no Cineclube do Estação, serve para nada - ladra, ladra, mas não consegue morder nem o próprio rabo.
Gilles Deleuze argumentava que, dentro de uma canção, o refrão era um espaço semelhante ao da nossa casa: a melodia é um vasto mundo onde podemos nos perder, mas, reencontrado o estribilho, voltamos a um lugar de segurança onde reconhecemos cada coisa em seu lugar. Por esse motivo que certos chicletes de Stevie Wonder, The Carpenters ou do Roupa Nova nos soam sempre tão naturais. São canções que não nos ameaçam, apenas dizem que está tudo bem.
Ao analisar a direção de “Ensaio sobre a cegueira”, Luiz Carlos Oliveira Júnior tentou ilustrar um maestro que, podendo redimir o mundo numa ópera sobre a ruína humana, optou por assobiá-la numa triste e banal canção pop. O único problema é que Fernando Meirelles sabe melhor do que ele até onde o canto lírico e as gomas de mascar podem ir.
Viciada em erudição infantil, a crítica cinematográfica acredita mesmo que a salvação se esconda nos limites da sala escura e que as cenas de um filme possam superar a realidade. José Saramago e Fernando Meirelles se contentam em discuti-la. As coisas ficam mais fáceis quando não se tem que provar nada pra ninguém.
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Júnior, Bárbara não lhe adora, mas lá em casa a gente te ama. E, a propósito, estamos com saudades.
8 comentários:
Excelente análise. Concordo que a crítica pegou pesado. Seu texto vai além de contestar, oferece um caminho para se rever e reverenciar o filme.
Li, concordo em gênero, número e grau e não poderia colocar de melhor maneira a sua argumentação. Se o filme teve esse efeito na tua tia (como teve em muitas outras pessoas que o assistiram), ele transmitiu a mensagem e cumpriu seu papel. Como disse Heidegger "a arte faz a verdade manar". O resto é exercício de vaidade pseudo-intelectualóide.
é por causa de vocês que eu sou da acadêmicos do caralho a quatro!
cara, você precisa ler a crônica do veríssimo no globo de hoje (18/12)
um beijo,
Super.
Mais um motivo pra eu te admirar.
Caraleo, agora é que eu vou mermo ler esse filme.
queria começar meu comentário com "caraleoooo", mas percebi que seria chover no molhado. acho que todo mundo aqui assim o fez.
adorei. agora venho aqui sempre. ler e reler aquilo que penso e mal consigo entender...
vou divulgar, pode?
rsrs.
ps.: amiga de juanita, a carioca mais legal que eu conheço.
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