10.12.07

nepotismo

depois nego me chama de derrotista, mas como virar estrela num país onde favores familiares são a única forma de ascensão social?

. . . . .

mariana ximenes e michel 'meus pais saíram de férias' joelsas provando que a verdadeira cadeia produtiva do cinema brasileiro se chama dna.


27.11.07

pagando de patrão

e eis que nasce mais um orgulho pra mamãe: atendendo a um convite muito simpático de madame fabrícia, tô assinando a 'curadoria de poeta' do portal literal neste mês. de hoje até o fim de dezembro, escrevo uma coluna por semana, com indicações de frutos frescos do meu balaio de referências.

cecília me chamou pra brincadeira consciente de que a poesia pouco está no meu faro, menos ainda nas minhas mãos. sendo assim, assumi o duplo desatino sem maiores grilos: mesmo ignorante em ambas as atividades, ser chamado de poeta e curador ao mesmo tempo é uma tiração de onda que eu só dispensaria se fosse íntegro. desfrutando de um compromisso notoriamente frouxo com a honestidade, o que me restou foi acatar o convite de bom grado e correr atrás de sugerir bons sabores à platéia deste portal para lá de bacanudo.

a 'curadoria de poeta' já contou com os 7novos, ismar tirelli neto e la brognita entre seus colaboradores, e costuma enfileirar, a cada nova edição, uma porção de gente boa pronta para ser descoberta. eu tô de gaiato nessa história, mas dá um confere lá pra ver se não acabo me redimindo com os talentos que encontro nesse brasil varonil.

. . . . .

bri, tu é um carinho.

5.10.07

amor de perdição





menino palito gostava da garota fósforo.
gostava era pouco:
sua figura esbelta
o deixava louco.










mas como acender entre eles

a chama da paixão? simples.
foi só seguir seu desejo à risca,

que ele saiu queimando faísca.









poema e ilustrações de tim burton em "o triste fim do menino ostra & outras histórias" . nova iorque, 1997 .

. . . . .

te dedico.

28.9.07

srta. rosa com o candelabro

desde maio, os amantes do jogo 'detetive' encontram um motivo a mais para acompanhar o noticiário internacional. as investigações sobre o desaparecimento da pequenina inglesa madeleine vêm mobilizando a imprensa estrangeira e angariando diferentes tipos de apoio, dentre os quais se destaca o pacote de dez sessões de depilação a laser pagas por david beckham a quem der alguma pista do paradeiro da menina.

leviano que sou, em meio a este circo dos horrores só consigo prestar atenção noutra coisa: que me perdoem a polícia portuguesa, os astros da tv britânica, a pastoral da criança e a sagrada opinião pública, mas só tá faltando kate mccan ser mesmo declarada a dissimulada assassina da própria filha para eu gamar de vez.

11.8.07

grande artís

eu não viajo nem de varig, nem de tam, nem de gol.
eu só viajo nas asas da emoção.

carulina em "tarifa de embarque" . rio, 2007 .

. . . . .

em primeira mão, o blog desta embromadora que não engana o público jamais.

24.7.07

chá de sumiço

intimidados pelas pressões de um meio ambiente amalgamado com o artifício, os corpos contemporâneos não conseguem fugir das tiranias (e das delícias) do upgrade. um novo imperativo é internalizado, num jogo espiralado que mistura prazeres, saberes e poderes: o desejo de atingir a compatibilidade total com o tecnocosmos digitalizado. para efetivar tal sonho, é necessário recorrer à atualização tecnológica permanente - impõem-se, assim, os rituais do auto-upgrade cotidiano.

paula [ttéia] sibilia em "o homem pós-orgânico" . rio, 2002 .

. . . . .

tenho me esquecido do dever de atualizar esta bagaça.
é muito update pro meu déjà vu.

22.7.07

stand by

vê se não esquece
sobre o piano do sótão

como rascunho de uma canção
não nascida
como corpo morto
antes de habitado

é melhor guardar como um
drops de halls preta no bolso esquerdo
da mochila:
carta na manga
felicidade disponível

entre canetas sem carga
e farelos de borracha
entre trocos de ônibus
e bilhetes da sessão passada

entre os dedos
uma história não vivida

26.6.07

isso é web art?



"webart", de claudio bueno & gunter . vencedor do festival "i love my gif"

. . . . .

agora tu me diz: é ou não é uma gracinha?

15.5.07

quero ter olhos pra ver

é nisto que reside a excepcional novidade de nossa cultura ética: pela primeira vez, eis uma sociedade que, longe de exaltar os mandamentos superiores, os eufemiza e os desacredita, desvaloriza o ideal de abnegação estimulando sistematicamente os desejos imediatos, paixão do ego, a felicidade intimista e materialista. as nossas sociedades liquidaram todos os valores sacrificiais, quer sejam determinados pela outra vida ou por finalidades profanas.

gilles lipovetsky em "o crespúsculo do dever" . paris, 1992 .

. . . . .

"proibido proibir", segundo longa-metragem de jorge durán, se não chega a ser um filme perfeito, consegue o que toda boa arte deveria querer: colocar o espectador contra a parede de seu berço esplêndido, localizá-lo na engrenagem da desgraça coletiva e oferecer em troca nem constrangimento nem redenção, mas a descoberta toda inédita de que, para o bem e para o mal, está vivo.

no título, o sample do grito militante da juventude de 68 pode parecer gratuito, mas esconde um grau de ironia. a sentença-paradoxo "é proibido proibir" não quer dizer o mesmo que a meta-interdição "proibido proibir". nos quarenta anos que nos separam daquele maio, operou-se a transição das leis do imperativo para a substantivação de um verbo, sua coisificação, sua gradativa e fatal implantação na lista das inutilidades.

como queria ivan karamazov, a morte de deus nos trouxe de bandeja a morte de todos os vetos. proibir, portanto, não é mais um gesto factível, tornou-se palavra de ordem meio oca, resíduo de costume que só professa quem é bento. pense bem: "proibido estacionar", "proibido fumar", "proibido celular"... é preciso muita ingenuidade para escorregar na pretensão de proibir.

deve ser por isso que quando se fala "proibido proibir", no meio da narrativa, como reação instintiva a um pito, nela se perceba um humor distante do protesto, mas bem próximo do fastio de quem explica uma obviedade. a glória de ser contemporâneo é saber que qualquer chicote é muito pouco couro pra quem lustra o traseiro no livre arbítrio.

jorge durán fez um filme sobre paulo, letícia e leon, que sintetizam em suas falas e tomadas de atitude vários sintomas do charme e do desencanto de uma geração. no entanto, abriu mão da vaidade de fazer de seu filme um tratado, abraçando a singularidade de seus personagens ao invés de torná-los cartas marcadas de um jogo de retórica.

paulo, letícia e leon parecem, assim, muito reais em sua humanidade, que tem como pano de fundo o laboratório de ideais e desolações que só poderiam encontrar na universidade pública. e, talvez, só quem conhece aquele cenário (o campus do fundão da ufrj) possa se valer da lembrança malcheirosa da baía de guanabara, que se soma à mise en scène da vida universitária como um alerta de que o solo onde se semeiam nossos sonhos está podre.

esta contaminação de sujeitos em estruturas – e vice-versa – poderia ser ampliada e facilmente se transformar num discurso sociologizante sobre o comportamento dos universitários brasileiros. ou seguir a trilha ainda mais fácil de uma abordagem romanesca sobre os extravios de um triângulo amoroso. mas o que é bonito em “proibido proibir” é sua lealdade à história que quer contar, o que leva o filme, por outro lado, a evitar o excesso de manobras estetizantes, esta mania sempre aplaudida e que tem em “o céu de suely” um insosso exemplo recente.

a receita de durán, contudo, não é simples. a universidade, que já significou a menor distância para um certo tipo de crescimento humano, surge no filme como um degradado espaço de formação. o rio de janeiro, habitualmente visto como a matriz do desbunde ou do horror, apresenta sua existência periférica, numa fotografia suburbana, suada e aflita. e os jovens, detratores autênticos da ordem natural das coisas, são agora forçados a um trajeto prematuro da supraconsciência histórica à certeza de que o herói pós-moderno, antes de salvar o mundo, garante a sobrevida cosmética da própria pele.

ao bater as botas, deus encurtou sensivelmente o raio do círculo de referências cujo centro regulador é o nosso umbigo. com isso, a realidade social virou uma marcha anônima de pequenas circunferências, que fazem da vontade própria seu mais elaborado princípio e do fone de ouvido a melhor saída pra abafar explosões vizinhas.

a grandeza de "proibido proibir" está no encontro casual de três dessas esferas, que, atrapalhadas em seu ritmo avulso, acabam elegendo a micropolítica de seus sentimentos como um paliativo para a grande descoberta da vida: a de que o buraco é sempre mais embaixo.

24.4.07

pt saudações #2

hoje foi um daqueles dias em que o brasil, esse país que tem o saudável vício de parar, parou mais uma vez. um simples comunicado online roubou o chão de toda uma nação de barbudos sensíveis, patricinhas descoladas e proprietários de brechós. a banda los hermanos, o maior fenômeno do pop-rock brasileiro nos últimos dez anos, avisou que está saindo de campo sem previsão de volta, deixando órfã uma legião de amarantes, camelos, buarques-mirins.

é uma notícia de peso para todos os cadernos do jornal, do obituário ao suplemento de moda, mas especialmente pra seção de economia. após os dois shows de despedida agendados para maio na fundição progresso, tende a ficar ainda mais volumoso o índice de produtos derivados de sua escola de comportamento. dos discos de samba-jazz sessentistas ao universo de tonalidades de cáqui que infestam os figurinos de nossas cidades, todo um mercado se estabeleceu em torno da banda que nasceu pra ensinar à geração 2000 o que vinha a ser idiossincrasia low profile.

mas pra quem se atordoou com o comunicado, resta sempre uma esperança: os los hermanos são categóricos em afirmar que o recesso não é motivado por qualquer desentendimento. como todo mundo sabe, os los hermanos não brigam com ninguém, muito menos entre si, e, se exaltam a voz fora do palco, é só um gesto calculado pra mostrar o quanto são mais refinados que eu, você e todos os heróis que o rock’n’roll consagrou.

camelo, amarante, medina e barba são dignos representantes de um tipo de arrogância que só o rio de janeiro sabe produzir, uma marra travestida de doçura capaz de engabelar clientes de diversos naipes. este é, sem dúvida, o componente mais indigesto de seu legado artístico: o alto grau de ternura que acabam fazendo transbordar em seu público, que peca pela falta de pecado, pelo enciclopédico conhecimento de curtas-metragens e vinis históricos e, principalmente, pela meiguice incorporada à conduta.

mais do que um punhado de canções acima da média, o que o quarteto carioca nos deixa é a certeza de que meninos bem-nascidos, bem-criados e bem-resolvidos não podem presentear pais e mães cautelosos com qualquer desonra. é o tipo de lição que começa a se aprender em casa, a puc se esforça em aprimorar, e só pode ser plenamente amadurecida no terreno encantado do baixo gávea.

a nota sobre o descanso da banda garante que a amizade e o contato entre os quatro serão mantidos pelo sagrado jogo de truco semanal. e eu, que não passo de um zé-ninguém, fico me perguntando onde foi parar a polêmica, este aditivo fundamental para o repertório de assuntos coletivos, este elemento que desvia a atividade artística da rota ordinária do bom senso e que abastece de sentido as discussões de botequim, as disputas ideológicas entre os casais e os mais exaltados almoços de domingo.

é uma nítida preferência pelo bemol que não faz parte da minha furibunda concepção. um empenho pelo tom menor de cada modo que põe arte e vida num pacote soft-bege e numa zona confortável, em paz com a própria consciência. para a ajuizada, inteligente e venturosa platéia que transforma seus shows dissonantes em doutrina uníssona, camisa pólo, xadrez e listras são mais do que meras afetações estéticas. viraram filosofia de vida.

6.4.07

moral

não existe mulher difícil.
existe mulher mal cantada.

joão fabrício venâncio de oliveira (25), namorado de luma de oliveira (42), ao falar sobre como se aproximou da musa.


. . . . .

poder de síntese: você vê por aí.

27.3.07

don't [let] me be misunderstood

o amor é uma mistura de corpos que pode ser representada por um coração atravessado por uma flecha, por uma união de almas etc; mas a declaração "eu te amo" expressa um atributo não-corpóreo dos corpos, tanto do amante quanto do amado. "eu te amo" é um marcador de poder, mesmo no caso de um amor infeliz.

gilles deleuze e félix guattari em "mil platôs - capitalismo e esquizofrenia" . paris, 1980 .

. . . . .

então eu entrei de cabeça nessa onda de descobrir poesia na filosofia da linguagem. é uma água nova e meio turva, mas não me assusta. conheço a arte de extrair faísca das britas e leite das pedras. é de buscar poesia que se vive [não é, menina], de procurar delicadeza no mundo dos brutos, de apresentar uma saída que não é o grito, nem o choque, nem o corpo. uma flecha que é mera sugestão.

viver de dedução, é assim que eu vivo [não é, menina], à espreita dos fatos, à beira dos atos, como se tudo estivesse suspenso só pra assistir à dança fora de moda que eu te propus, um segundo em que tudo parasse de rodar pra acompanhar o movimento mínimo da vontade, uma pausa para o encanto que não coube na tua agenda.

e eu, presa dos meus vícios, vítima do discurso, me embrulhando num papel todo novo pra te dar, eu te vi ter pressa, essa pressa sem direção que chamamos de curiosidade, essa necessidade infantil e tão natural de saber o que o mundo tem a oferecer. eu vi o teu futuro na minha frente e vi meus braços serem pouca rédea pros teus músculos sadios e sem questão.

eu vi como há muito tempo não via a poesia sorrir pra mim. sorri de volta, corri com meu cavalinho pra chuva e achei que assumir o risco era menos ridículo do que de fato é. eu vi métrica no teu texto, vi semiótica nos teus códigos, vi um encontro onde você viu exercício de estilo.

é de perder ilusões que se vive, menina, de olhar para as evidências sem entrelinhas, nem óculos escuros. eu vou aprendendo com o tempo tudo o que você já sabe de cor.

12.3.07

bilhete

fora de sua objetivação, de sua realização num material determinado (o gesto, a palavra, o grito), a consciência é uma mera ficção.

mikhail bakhtin em "marxismo e filosofia da linguagem" . moscou, 1929 .


. . . . .

pego o mundo de dentro, o balé da reticência, a festa do quase
e caibo tudo num post it.

28.2.07

narrar-o-hoje

o caos não tem direção, sobre ele é impossível se contar qualquer história. tentar narrá-lo é tentar prendê-lo numa rede de sentido.

. . . . .

ouvi isso hoje na aula.
achei bonito.

25.2.07

colo de kyoto

o fim do mundo é boato, lance de mercado
inferno pra vender
bóia
ideologia
& lorax

o mundo não é feito de estatística
nem de amazônia
nem de alarme

é coisa mais delicada
que os índices de pesquisa

tipo um sussurro -
disca aí meu número
que eu te conto:

é só o começo da medida
o início da festa
a ante-sala pro quintal

23.2.07

detached house

aquele pedaço mal contado – não contado – finge que é reserva, mas no fundo é medo. medo de quem fica nu pela primeira vez aos olhos de alguém. e a atenção se esgota em esconder as marcas de acne e catapora que ninguém mais enxerga, mas que estão lá pra dizer que alguma coisa te condena. o tempo se consome disfarçando a pouca metafísica do corpo enquanto o latim se vai, pra enrolar o freguês da vez. coça-se o queixo, arrisca-se uma polêmica, o teatro toma conta do jardim.

1.2.07

nossa casa

mal fora iniciada a viagem, um deus me segredou que eu não iria só.

david mourão-ferreira em "inscrição sobre as ondas" . lisboa, 1988 .


. . . . .

minha conduta nunca ofereceu muitos motivos para eu me orgulhar de mim mesmo, mas, dentro do minguado elenco dos meus méritos, existe um do qual eu publicamente me envaideço: tenho talento pra escolher o que me rodeia.

é verdade, também, que deus tem sido camarada nesse sentido. pra que eu não tenha de mim uma apreciação dolorosamente verdadeira, ele vai me cercando de pequenos trunfos e, assim, fornece uma indenização homeopática para as minhas próprias limitações. o que tenho de mais valioso na vida está do lado de fora, mas, positivamente, em volta de mim.

dentre todas as nobres criaturas que me rodeiam, existe uma que me rodeia muito mais. isso não se deve apenas a uma coincidência geográfica, mas à descoberta mútua e precoce de que uma pessoa é tanto mais autêntica quanto mais se parece com aquilo que sonhou para si. juntos, fizemos da autenticidade uma prioridade elementar, e o que sonhamos para nós mesmos é exatamente aquilo que tratamos de construir.

isso a que demos o nome de sonho é uma casa muito engraçada, onde não tem teto, onde não tem nada. é uma casa imaginária, possivelmente uma casa no fim do mundo, uma casa que abraça a gente e explica tudo.

a menina que mora comigo nessa casa é sua estrutura e alegria. ela é onde o mundo se resolve, onde a luta se pacifica. seu faro é o meu roteiro e eu acompanho sua vanguarda com uma marcha barroca e vacilante. mas ela me ama, eu sei, e me empurra pra frente porque o futuro que ela representa só faz sentido porque é feito de inclusões.

é um privilégio notar que a consciência plena da condição intestinal um do outro já deixou de ser o maior testemunho da nossa intimidade. nessa casa que construímos para nós, criamos aquele tipo de ligação peculiar dos umbigos e, hoje, sua piada é a minha, minha dor é a dela, se ela dança, eu danço.

mesmo quando a vida não lhe é justa, ela sabe fazer do riso uma saída elegante e generosa. ela sabe que qualquer tempestade é muito pouca água pra quem se enraíza a fundo, pra quem sabe fertilizar seus solos e só se nutrir do que vale a pena.

não são muitas as pessoas que vieram ao mundo pra ensinar o conjunto de coordenadas que se cruzam nesse sentimento que chamamos de amor. a carulina fez disso sua profissão. e eu a amo como um aprendiz.

. . . . .

tamo junto, neném.

24.1.07

ame-o e deixe-o ir aonde quiser

não te equivoques, nathanael, ante o título brutal que me agradou dar a este livro. nele me pus sem arrebiques nem pudor; e se nele falo por vezes de lugares que não vi, de perfumes que não cheirei, de ações que não cometi – ou de ti, nathanael, que ainda não encontrei – não é por hipocrisia, e essas coisas não são mais mentirosas do que este nome que te dou, nathanael que me lerás, ignorando o teu, ainda por surgir.

quando me tiveres lido, joga fora este livro – e sai.

sai do que quer que seja e de onde seja, de tua cidade, de tua família, de teu quarto, de teu pensamento. que meu livro te ensine a te interessares mais por ti do que por ele próprio – depois por tudo o mais – mais do que por ti.

andré gide em “os frutos da terra” . paris, 1927 .


. . . . .

para nathanael, com devoção.

8.1.07

sexygenário

quando todas as evidências me diziam que hoje eu não fugiria do ranço de desgosto e banalidade de toda segunda-feira, cai a bomba: david robert haywood-jones - mais conhecido como camaleão do rock - está completando 60 anos de idade e ninguém me chamou pra parada cívica.

hoje é um dia especial pra comunidade cool, hype, yuppie, glam, fashion, lad insane. é um dia especial pra quem aprendeu com ele que o que dá onda é ser über. como se sabe, david bowie é o resumo poético das melhores façanhas de comportamento surgidas na música dos últimos 40 anos. ele explicou, na pluma múltipla de seus heróis, a inconstância do espetáculo e a cortina de sexo, consumo e pó que os anos 70 pensavam ser um mero refluxo de valores. ele mostrou que a força do rock nascia de uma adolescência tipicamente masculina, ainda quando fazia da ambigüidade um desafio e um desfrute. ele ampliou os limites da canção pop ao lhe dar ambições de grande arte, povoando suas obras de figuras, enredos, paetês, mitologia, charadas, gomalina e uma ironia de que nem mesmo ele parecia ter noção.

de uns tempos pra cá, o camaleão tem optado por uma vida mais regrada: sua atuação na psicologia e no diretório nacional do pt não tem encorajado a mesma euforia crítica que seu legado artístico. ao se afastar dos palcos para batalhar politicamente pela união civil entre pessoas do mesmo sexo, sua voz ficou sem viço, o botox afrouxou, a proposta perdeu o foco e o gume.

mas hoje é dia de festa. e não me interessa discutir seu papel frente à prefeitura de são paulo, o inesperado rompimento de um casamento sólido ou o vexame da carreira musical de seus filhos. eu quero mais é festejar o requinte deste bastião da condição pós-moderna: à esquiva de toda chapinha e toda balayage, de todo punk e todo grunge, de todo estoque e todo ibope, david bowie continua a ser o melhor produto de si mesmo.

19.12.06

silkscreen

abertura do festival contemporâneo, ontem, no sintomático instituto oi futuro.

em meio ao desfile de atitude que todo bom evento destinado à vanguarda é capaz de animar, eu só pensava na modéstia do meu figurino. um social gathering desses, cujo objetivo-fim parece ser o aplauso mútuo dos mais ousados tipos urbanos, merecia uma camiseta-manifesto, a proclamar, em alto e bom som, o arrojo do meu modus operandi.

em seu núcleo, a estampa: deleuze já passou.
queria ver alguém mais pós-moderno do que eu.

13.12.06

headphones a postos

pra ouvir:


a primeira embromadora que não engana público



& o baluarte da sagacidade brasileira.

19.11.06

discurso ao osso

muito antes de ser uma circunstância física ou uma questão de estilo, a magreza é um lugar de onde se percebe o mundo. sem a defesa que a capa de gordura fornece aos tecidos, os magros vivem sob o eterno risco de um impacto: choques domésticos tomam proporções impensadas, a lotação dos transportes coletivos preocupa, a experiência do sexo destoa da elasticidade do erotismo comercial.

ser magro não é uma tarefa para os fracos de espírito, menos ainda para os impacientes. a opinião pública costuma julgar a vizinhança de pele e osso pela via da compaixão, quando não da caridade, e isso acaba tornando o cotidiano difícil. além dos olhares cheios de humanidade, somos alvo de sugestões milagrosas, orações e simpatias. ao magro fica assegurado, muito antes de qualquer exposição às aventuras da adolescência, o posto absoluto de ovelha negra da família. afinal, quem teria coragem de dar à própria mãe o mais prematuro de todos os desgostos, negando seu direito de ter um filho robusto, cujo apetite é capaz de se renovar a cada nova receita?

geralmente, as tentativas para reverter o quadro começam com biotônico fontoura, passam pela emulsão scott e desembocam nos orexígenos propriamente ditos. são apelos de diversas ordens em busca de bochechas, de pequenas sobras aqui ou ali, enfim, de "saúde". contudo, da incapacidade desses dispositivos em alargar medidas ou conferir um aspecto menos vulnerável a filhos, netos e sobrinhos, cresce um desapontamento muito peculiar nas relações familiares: a frustração de compartilhar um histórico sanguíneo formador de estruturas franzinas, sabidamente as de menor destaque no reino animal.

ainda que as mães, a certa altura do campeonato, abram mão de seu dever canônico e consintam com o chamado biotipo do filho ossudo, nas faculdades, academias de ginástica, cursos de idioma, encontros religiosos e palanques políticos eles continuam a ser vistos pelos olhos da estranheza. é que a frase meio batida de nelson rodrigues ("todo canalha é magro") encontrou coro no inconsciente coletivo brasileiro, alçando a bunda da mulata e o muque do peão ao posto mais-ou-menos tirânico de preferências nacionais.

mas esse texto começava dizendo que a magreza não é um simples distintivo físico e se ilude quem pensa que, além disso, ela só pode ser uma perversidade da natureza. é, antes, se esconder debaixo de tudo o que a força bruta ignora ou pisoteia. longe do que constitui nossa existência (o discurso, a linguagem, os valores), o que resta, sempre, é nosso próprio corpo. para o magro, o que resta é menos ainda, um corpo-ainda-mais-resíduo, um corpo-convite à investida de qualquer acaso.

a magreza, assim, é uma má sorte somente para quem veio ao mundo para amortecer os caprichos da gravidade. a ciência de ser magro consiste em fazer do próprio corpo o centro sísmico do mundo, a origem e o efeito dos abalos, um tipo de barro, um devir, um destino. é o desmentido da teoria rodrigueana: a verdade exclusiva desse ente tão estranho que é o corpo se traduz em quanto menor a distância entre aquilo que aparentamos ser e aquilo que não nos deixa mentir quem somos, em quanto menor a guarda entre a superfície e o osso – cálcio-sumário dos danos e gozos da vida.

12.11.06

ufania carioca #1

eu me orgulho de viver numa cidade onde existem poucas coisas mais cafonas do que uma pessoa bem vestida.

23.10.06

je m’excuse


"auprès des millions d’enfants qui ont pu voir ce geste".

. . . . .

à bagatela.

22.10.06

guilhão

se eu fosse você, leitor que não existe, eu dava um pulo nesse novíssimo blog aqui. a lojinha digital das encadernações de mariana carvalhosa guilhão em muito pouco tempo vai ganhar o mundo. uma cobra criada como ela tem o dom que só as boas cobras criadas têm: transformar em ouro tudo em que põe as mãos. mariana tem habilidade para enxergar e produzir coisas belas para além do vício preguiçoso e limitador dos olhos. o capricho do seu trabalho é uma prova disso, um pequeno souvenir para o bom gosto cheinho de conceito. eu não vou elogiar mais porque senão ela acaba acreditando e nossa relação fica mais complicada do que já é.

. . . . .

eu não tô ganhando porcentagem, mas acho que objetos bonitos e úteis assim são bons presentes para qualquer pessoa, inclusive para si mesmo. então vai lá, dá uma força pra garota (mas pede desconto dizendo que é meu amigo).

8.9.06

id x supereu

inclino-me vertiginosamente sobre as possibilidades de cada ser e lastimo tudo o quanto o manto dos costumes atrofia.

andré gide em "os moedeiros falsos" . paris, 1925 .

4.9.06

continuando a obra



porque, no dia em que papai se for, já tem quem saiba enganar direitinho uma platéia.

. . . . .

2set06@circovoador
moreno+domenico+adriana+cocorosie no palco.
todo mundo que tem juízo na platéia.

foto por fernando rocha magalha.

finíssima



uma ttéia que, de tão chique, tem o sonho de ser simples.

foto por fernando rocha magalha.

1.9.06

assumir origens


. hana-bi (fogos de artifício) . um filme de takeshi kitano . 1997 .

eu nunca contei pra ninguém que este blog se chama fogo-de-artifício por conceito, e não por luxo pirotécnico. quem me revelou a natureza subjetiva deste tipo de explosivo foi takeshi kitano, o japonês mais sofisticado dos últimos tempos.

segundo a mais recente edição do dicionário houaiss da língua portuguesa, fogo de artifício tanto é um dispositivo cuja combustão provoca luz e cor, como também uma forma elaborada de engano: é uma definição pra tudo aquilo que tem mais efeito do que substância. em hana-bi, o filme pro qual este blog paga tributo, toda a escala de valores kantiana-cristã que encarcera a vida social parece tropeçar num erro de programação primário. simplesmente porque, para takeshi kitano, a brutalidade é um indício tão humano quanto a delicadeza.

este blog homenageia um filme que é um balé bárbaro e ao mesmo tempo sutil, de humor súbito, frio e infalível como o melhor sushi. o próprio kitano interpreta nishi, um policial às voltas com um mundo que se desmorona a cada instante e para o qual propõe um plano de redenção. como eu não escrevo pr´o globo, não vou perder tempo contando a história. como também não escrevo pra contracampo, não vou perder tempo dissecando a psique dos personagens.

dentro da obra de kitano (que inclui torpedos como dolls, sonatine e brother), hana-bi situa-se como uma pedagogia, um privilégio e um aval. é um elogio às coisas belas, a tudo o que não se fia na eternidade, mas nos lapsos capazes de mudar a lente com que se enxerga o que está em volta. é um filme de brechas por onde se veja a luz.

. . . . .

uma vez escrevi um ensaio sobre este filme que começava exatamente assim:

não é de muito se estranhar que o "the boston phoenix" tenha publicado quando do lançamento mundial de sonatine: "esqueçam quentin tarantino, aqui está takeshi kitano". à retina ainda tonta da crítica, a crueza do estilo do japonês fazia com que a estilização da crueza operada pelo americano estivesse mais próxima do chiste que do choque.

você, leitor que não existe, tem aí a minha dica pro seu fim-de-semana. marca touca, não.

20.8.06

absurdos da cyberera


albert einstein dizia que, depois da bomba atômica e da bomba demográfica, surgiria o mais sutil e poderoso de todos os explosivos: a bomba da informação.

o velho era mesmo porreta.

8.8.06

bagatele-se

joguei pro mundo outro filho. desses que a gente vai parindo sem saber que nome dar. joguei pro mundo porque, hoje, ficar só com o lado ruim do anonimato é um pouco burro: dar a cara a tapa e receber no máximo uma chochada por escrito é um dos maiores privilégios de ser contemporâneo.

este novo produto da minha linha de montagem só existe por influência direta de uma certa piaçava baiana, mais conhecida como mário betão. desde pirralho que nutro interesse nessas conversas de poesia com música, uma abastecendo a outra de sentido, embaralhando as formas que os virtuoses adoram engessar e se transformando, juntas, numa coisa nova, em que o que vale é o conceito. aquilo que todo filho bastardo da mpb setentista (sendo antes fã de letra que de música) curte, mesmo sem saber muito bem o porquê.


a falta de talento e a exigência de que as coisas saiam razoavelmente perfeitas já me fizeram desistir de qualquer produção a sério nesse ramo há muito tempo. mas há uma meia-dúzia de amores no meu currículo contra quem já investi esses resíduos de lirismo... e, antes de tomar coragem para publicar sussurros novos em folha, resolvi colocar esse arquivo sentimental no ventilador, como um retrato para além dos meus feitos íntimos: são registros imodestos de um outro tipo de amor - exatamente aquele que me liga às palavras.

dei ao novo filho o nome de [bagatela] por uma série de motivos óbvios, como, por exemplo, o despropósito de um podcast num mundo que precisa de medidas sérias e urgentes. mas também dei esse nome por conta daquela canção que diz “será que a gente é louca ou lúcida quando quer que tudo vire música?”. você, leitor que não existe, pode perder seu tempo e conferir o que exatamente quero dizer com isso aqui.

4.8.06

vivinho da silva

às vezes dá vontade
de subverter a ordem,
abandonar o script,
esquecer a proposta

e fazer da vida
uma notícia nova

7.7.06

tá combinado

então é assim: a gente finge não saber exatamente o que tá acontecendo. não toca no assunto pra não ficar sem resposta, afasta o corpo perto e parece acreditar que o resvalo é só a obrigação corpórea de um incidente. a gente desconsidera o olhar prolongado, a gratuidade de cada sorriso e todas as sugestões de que a coisa não pára muito bem por aí. o acordo é esse: vamos nos enganar, mas de forma transparente.

6.6.06

tem o mito da atualização, como se se vivesse algo novo a cada dia, como se a vida tivesse essa obrigação formal, no fundo ética, de dizer alguma coisa que preste. tem essa mania, por certo romântica, de se sonhar um sobressalto a cada esquina, um murmúrio que pareça querer dizer aquilo que até então não se entrevira. tem essa busca, de forma alguma natural, de tirar as vendas dos olhos cegos de toda a vida que foi labirinto e escuridão.

20.5.06

festa do apê


a água com a areia brinca na beira do mar
...
a água passa, a areia fica no lugar

14.5.06

eu digo sim

pra quem, na era do espelho midiático, consegue sustentar mistérios sobre si mesmo.

12.5.06

canção noturna da baleia



só ahab não soube
a noite que me coube
call me moby

herman melville + augusto de campos @ errática

8.5.06

assim falou-se:

"(...) seja por influência da beberagem narcótica, da qual todos os povos e homens primitivos falam em seus hinos, ou com a poderosa aproximação da primavera a impregnar toda a natureza de alegria, despertam aqueles transportes dionisíacos, por cuja intensificação o subjetivo se esvanece em completo auto-esquecimento. há pessoas que, por falta de experiência ou por embotamento de espírito, se desviam de semelhantes fenômenos e, seguros no sentimento de sua própria saúde, fazem-se sarcásticas ou compassivas diante de tais acontecimentos: essas pobres criaturas não têm, na verdade, idéia de quão cadavérica e espectral fica essa sua 'sanidade' quando diante delas passa bramando a vida candente do entusiasta dionisíaco."

friedrich wilhelm nietzsche . em "o nascimento da tragédia" . 1872 .

. . . . .

é esse tipo de literatura de auto-ajuda que tem me impedido de buscar socorro nos a.a. .

5.5.06

este post vai pro fábio

porque ele voltou de férias mais comburente do que nunca. porque ele é o tipo exato de geringonça que se deve conhecer na vida. e porque ontem a gente cantou “tigresa” no táxi de forma ébria e muito linda.

o fábio não vai ler isso aqui porque não sabe que eu tenho um blog. nem vai ficar sabendo por mim, muito menos pelo orkut, que ele visita a cada três meses. o fábio é assim, é informado do mundo pela folha e pela new yorker, olha pras coisas com mil olhos ao mesmo tempo e não se rende fácil a tudo o que brilha.

eu gosto de estar por perto porque o fábio está seguro do seu tamanho e, por isso, é generoso o bastante pra tornar os outros maiores. ele sabe das coisas e me ensinou muitas delas. me mostrou que a vida vale mais a pena quando a gente dispensa defesas e se dispõe a aprender com as diferenças.

é o mais carioca dos meus amigos, mesmo sendo um autêntico paulista. ele paga a cerveja de todo mundo, e isso tá longe de ser o motivo que faz dele um sujeito muito amado: é só a festa que ele inventa pra viver.


26.4.06

michel melamed

eu queria sovar o michel melamed. cheguei a sonhar com uma razão crítica sobre seu carisma e sua astúcia de galã sendo malhados num texto parecido com os seus, provocativo, rascante, referente.

michel melamed é aquele sujeito que não é nada. mas que, pela reunião de um discurso letrado com a irresistível prosódia carioca, faz tudo: escreve, atua, apresenta, polemiza, convence, enche o bolso, reforma o apê da nascimento silva, faz temporada em nova iorque, muda o corte, cultiva o cavanhaque, flerta no circo voador e ainda ostenta pilhas de comunidades em sua homenagem no orkut do gênero “eu daria para...”.

aí eu pensei nisso tudo e resolvi parar de querer enganar meu público, logo agora que ele está crescendo: o que eu sinto por michel melamed não passa da mais profunda forma de inveja.