muito antes de ser uma circunstância física ou uma questão de estilo, a magreza é um lugar de onde se percebe o mundo. sem a defesa que a capa de gordura fornece aos tecidos, os magros vivem sob o eterno risco de um impacto: choques domésticos tomam proporções impensadas, a lotação dos transportes coletivos preocupa, a experiência do sexo destoa da elasticidade do erotismo comercial.
ser magro não é uma tarefa para os fracos de espírito, menos ainda para os impacientes. a opinião pública costuma julgar a vizinhança de pele e osso pela via da compaixão, quando não da caridade, e isso acaba tornando o cotidiano difícil. além dos olhares cheios de humanidade, somos alvo de sugestões milagrosas, orações e simpatias. ao magro fica assegurado, muito antes de qualquer exposição às aventuras da adolescência, o posto absoluto de ovelha negra da família. afinal, quem teria coragem de dar à própria mãe o mais prematuro de todos os desgostos, negando seu direito de ter um filho robusto, cujo apetite é capaz de se renovar a cada nova receita?
geralmente, as tentativas para reverter o quadro começam com biotônico fontoura, passam pela emulsão scott e desembocam nos orexígenos propriamente ditos. são apelos de diversas ordens em busca de bochechas, de pequenas sobras aqui ou ali, enfim, de "saúde". contudo, da incapacidade desses dispositivos em alargar medidas ou conferir um aspecto menos vulnerável a filhos, netos e sobrinhos, cresce um desapontamento muito peculiar nas relações familiares: a frustração de compartilhar um histórico sanguíneo formador de estruturas franzinas, sabidamente as de menor destaque no reino animal.
ainda que as mães, a certa altura do campeonato, abram mão de seu dever canônico e consintam com o chamado biotipo do filho ossudo, nas faculdades, academias de ginástica, cursos de idioma, encontros religiosos e palanques políticos eles continuam a ser vistos pelos olhos da estranheza. é que a frase meio batida de nelson rodrigues ("todo canalha é magro") encontrou coro no inconsciente coletivo brasileiro, alçando a bunda da mulata e o muque do peão ao posto mais-ou-menos tirânico de preferências nacionais.
mas esse texto começava dizendo que a magreza não é um simples distintivo físico e se ilude quem pensa que, além disso, ela só pode ser uma perversidade da natureza. é, antes, se esconder debaixo de tudo o que a força bruta ignora ou pisoteia. longe do que constitui nossa existência (o discurso, a linguagem, os valores), o que resta, sempre, é nosso próprio corpo. para o magro, o que resta é menos ainda, um corpo-ainda-mais-resíduo, um corpo-convite à investida de qualquer acaso.
a magreza, assim, é uma má sorte somente para quem veio ao mundo para amortecer os caprichos da gravidade. a ciência de ser magro consiste em fazer do próprio corpo o centro sísmico do mundo, a origem e o efeito dos abalos, um tipo de barro, um devir, um destino. é o desmentido da teoria rodrigueana: a verdade exclusiva desse ente tão estranho que é o corpo se traduz em quanto menor a distância entre aquilo que aparentamos ser e aquilo que não nos deixa mentir quem somos, em quanto menor a guarda entre a superfície e o osso – cálcio-sumário dos danos e gozos da vida.